Comportamento, Em pauta

Pequenas bailarinas no isolamento: a dança em 2020 para as crianças

O isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19 mexeu com a realidade e a rotina de todos. Trabalho, estudo, lazer… tudo precisou ser repensado e, como nos habituamos a dizer, reinventado. No que se refere ao público infantil, o desafio foi ainda maior para os professores, que precisaram descobrir novos caminhos para atrair e, ainda mais difícil, manter a atenção das crianças.

Neste cenário, escolas e professores de dança precisaram estudar, reformular e adaptar o conteúdo das aulas, além de buscar atividades que pudessem estimular os bailarinos, carentes da rotina das salas de aula, ensaios e palcos. Uma destas atividades foi a mostra competitiva do WebFestival Dança em Pauta 10 anos, realizada em maio, e tantos outros eventos online de dança que se seguiram.

Mas, se a pandemia pegou todos de surpresa, a forma como escolas e profissionais reagiram às limitações impostas fez a diferença. Para a professora Viviane Cecconello, diretora da Cecconello Dança, uma das escolas mais conceituadas de Curitiba, as aulas online foram o momento de inovar.

Sapatilhas Mágicas: projeto direcionado às crianças ganhou força durante o isolamento. | Imagem: divulgação

Desde 2006, a escola vem adotando uma nova abordagem com as turmas de baby class que resultou no projeto “Sapatilhas Mágicas”. A base são aulas temáticas, ou com recursos pedagógicos, que trabalham as habilidades necessárias para o desenvolvimento psicomotor da criança. O projeto estava pronto para ser lançado quando chegou a pandemia e, ao invés de “engavetá-lo”, ela decidiu reforçar sua metodologia com os professores da escola.

“O início foi bem difícil. Quando informamos que passaríamos a dar aulas online, tivemos pais que desistiram antes mesmo de tentar uma aula neste formato para a criança. Também vi excelentes professores nas aulas presenciais se sentirem totalmente perdidos no online. Foi quando reuni todos e reformulamos as aulas, adaptando o conceito do projeto Sapatilhas Mágicas para as diferentes faixas etárias de crianças. A gente oferece a técnica e a disciplina da dança clássica através do lúdico, que atrai elas. Por exemplo, entrando na realidade delas, confinadas em casa, fizemos a aula ‘bailarina dorminhoca’, em que todas usavam pijama”, explica Viviane.

A ideia deu certo e garantiu que as alunas seguissem com suas classes online até a recente retomada das aulas presenciais, tão esperadas por todos. “Foi uma alegria podermos retornar as atividades presenciais, mesmo que ainda com limitações e mantendo também as aulas online. Já na segunda semana que voltamos, tive mães que vieram me dizer que a filha era outra criança quando chegava em casa depois da aula”, ressalta Viviane.

Professoras da escola Cecconello reunidas para programar as aulas para as pequenas bailarinas. | Imagem: divulgação

O momento representou um desafio também para Vanessa Menezes, professora e diretora do Ateliê da Dança, escola do Rio de Janeiro. Ela, que como a maioria dos profissionais pelo Brasil nunca havia ministrado aulas online, teve que se adaptar aos recursos disponíveis naquele momento.

“Vejo que foi a melhor decisão que tomamos, pois, em um momento difícil de quarentena, as crianças acabaram sendo bastante afetadas psicologicamente e emocionalmente por terem que parar suas atividades. Ter aulas de ballet no formato online contribuiu muito para que elas não perdessem sua rotina e mantivessem contato com a turma. E sabemos que a dança também traz o benefício da socialização, algo tão importante num período de isolamento tão prolongado”, destaca Vanessa.

E a adaptação para as aulas se transformou em aprendizado para a vida. “Fomos aprendendo a usar a criatividade não só para dançar, mas para viver melhor esse tempo tão desafiador. E, as crianças conseguiram muito bem! Sou muito feliz por ver minhas alunas crescendo, não só nos palcos, mas diante dos desafios da vida”, diz a professora carioca.

Superando desafios desde cedo

Letícia Peleponis, 11 anos, estreia com solos em mostras de dança online no isolamento. | Foto: arquivo pessoal

Se os professores tiveram que abusar da criatividade para prender a atenção da maioria das crianças, com a bailarina Letícia Peleponis, 11 anos, aluna da escola Cecconello, não foi preciso muito esforço. O isolamento, com todas suas limitações, não conseguiu afastá-la de sua paixão pela dança e ela foi presença certa nas turmas online. “Foi complicado. A gente teve que se adaptar ao espaço de casa pra estudar, então não dava pra fazer giros ou saltos como na sala de aula. Também tinha horas que a internet travava. Mas mesmo assim, eu acho que foi bom pra me conhecer melhor, meus movimentos, e eu acho que teve muita evolução neste período também”, comenta Letícia, que já retomou as atividades presenciais. “Do que mais senti falta foi da energia da sala de aula. É muito diferente estar ali com suas amigas e a professora pra tirar dúvidas”, ressalta.

Com tanta dedicação, o isolamento acabou trazendo uma nova oportunidade para a bailarina. Acostumada a participar de mostras com apresentações em grupo, os eventos online de 2020 marcaram a estreia de Letícia com solos. A primeira foi no WebFestival Dança em Pauta e, de lá até outubro, ela conquistou o 1º lugar com o balé clássico livre “Amigos da Quarentena”, no Mery Rosa Lockdown; e o 2º lugar com a mesma apresentação e também com o balé clássico de repertório La Fillé Mal Gardeé no Blumenau em Dança Lockdown. “Foi uma surpresa logo no primeiro ano que participo com um solo conseguir primeiro lugar. Quando os eventos presenciais voltarem a ser permitidos quero continuar com as apresentações em grupo, mas também quero muito fazer meus solos”, diz Letícia.

Luisa da Costa, 11 anos: no isolamento, cada cantinho da casa virou palco de dança. | Foto: arquivo pessoal

Quem também superou desafios e manteve o foco na ponta dos pés foi Luísa da Costa Ferreira, 11 anos, aluna do Ateliê da Dança. A bailarina carioca ficou em primeiro lugar na categoria infantil nas modalidades Balé de Repertório e Balé Clássico Livre, no Webfestival Dança em Paulta 10 anos, sendo muito elogiada pelo trio de estrelas do júri composto por Cláudia Mota, Priscilla Yokoi e Tíndaro Silvano.

“No começo das aulas online, pelo Zoom, ela reclamava de não ter espaço suficiente, sentia falta do piso adequado e da barra de apoio para treinar. Nos ensaios, feitos por videochamada, tivemos que tirar o sofá da sala… mas ela não deixou de participar. Hoje, está feliz com o retorno às aulas presenciais”, conta Luciane da Costa, mãe de Luísa.

Para os profissionais que ainda estão fora das salas de aula, Vanessa Menezes tem algumas dicas:

“Nós, professores, somos capazes de dar suporte emocional aos nossos alunos. Paciência é fundamental para desempenharmos nosso papel da melhor forma possível. Vale a pena afastar os móveis da sala, usar a janela ou uma cadeira no lugar da barra. Por isso, a dica que eu deixo para meus colegas de profissão é: tenham paciência! Neste momento, o que mais vale é perceber o bem que está fazendo para cada bailarina. Estejam perto, mesmo que de forma virtual, preparem as aulas com o mesmo cuidado, invistam mais tempo em olhar para cada aluno por meio da tela. Eu mesma continuo dando aulas online, pois nem todas as crianças voltaram à escola de dança. Alguns pais ainda não se sentem seguros para voltar ao normal, então, acho muito importante que os estudantes, sendo crianças ou não, continuem tendo contato com a dança nesse tempo de pandemia mesmo sendo de forma adaptada”, diz a diretora do Ateliê da Dança.

Reportagem: Luiza Xavier e Keyla Barros

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