Colunas, Dança do Ventre em Pauta

Oum Kalthoum: a voz do Egito que eleva a nossa dança

Não há como falar sobre dança do ventre sem falar na música árabe. Da mesma forma, não há como falar sobre a música árabe sem citar a maior cantora egípcia e uma das maiores personalidades do mundo árabe de todos os tempos: Oum Kalthoum. É a essa lendária artista que dedico meu primeiro artigo aqui no Dança em Pauta.

Oum Kalthoum é o nome artístico de Fatima Ibrahim al-Biltaji, nascida em meados do século XX, em El Senbellawein no Egito. Filha de um líder religioso, ela começou a cantar ainda criança recitando o Corão e convidando os fiéis para rezarem. Aos 16 anos começou a aprender músicas de repertório clássico e, na década de 20, quando sua família se mudou para a capital, Cairo, ela pôde aperfeiçoar seus talentos estudando com professores contratados por seu pai. Oum começou a ganhar fama e a trabalhar com grandes poetas, compositores e instrumentistas. Em 1934, a artista foi escolhida para inaugurar a Rádio Cairo com sua voz. Sua popularidade e influência foram crescendo e ela ganhou o apelido de “estrela do oriente”. Kalthoum começou a gravar discos e participou de 6 filmes no cinema, suas canções tinham natureza religiosa e popular; sua influência foi tamanha que se estendeu para além da área artística, chegando a ter representação religiosa e política. Em 1944, Kalthoum chegou a ser condecorada pelo rei Farouk I com seu mais alto nível de ordem e alguns anos depois também ganhou a admiração de Gamal Abdel Nasser, que seria o presidente do Egito.

Oum Kalthoum, a maior cantora do Egito.

Na década de 60 a saúde de Oum Kalthoum começou a se deteriorar e ela teve que cancelar concertos para se preservar. Seus shows se estendiam por horas, durante as quais eram cantadas apenas duas ou três peças musicais. Em 1964, Soheir Zaki, uma das grandes divas da chamada Era de Ouro da dança do ventre no cinema egípcio, se tornou a primeira bailarina oriental a interpretar com a sua dança uma música de Oum Kalthoum, pois teve a aprovação da própria cantora para tal. Com a música “Inta Omri” (você é minha vida), um dos maiores e mais famosos sucessos de todos os tempos do mundo árabe, Soheir abriu o caminho para outras bailarinas dançarem as músicas da lendária cantora.

O vídeo abaixo mostra a bailarina Soheir Zaki dançando ao som de Inta Omri:

Estudar as obras de Oum Kalthoum é um assunto extenso, quase inesgotável para nós bailarinas e professoras de danças orientais. Os números que dançamos hoje são versões mais resumidas dessas composições, adaptadas e arranjadas para a dança oriental. Ao estudar, interpretar e dançar as adaptações de suas canções é possível compreender e chegar o mais perto possível do sentimento árabe, tornando nossa dança mais contextualizada, poética, emocionalmente mais sensível e conectada às suas origens. Com a sua voz linda e potente (de contralto) não é difícil ficar horas ouvindo-a, assistindo seus vídeos e reparando na sua imagem com um lenço na mão junto à sua grandiosa orquestra.

Oum Kalthoum faleceu no Cairo em fevereiro de 1975, vítima de um ataque cardíaco. Sua popularidade era tão grande que a notícia de sua morte provocou uma manifestação, que resultou no adiamento de seu funeral em 2 dias para que todos os milhares de fãs pudessem estar presentes no cortejo. Após sua morte, ela continuou sendo uma das cantoras mais vendidas do mundo árabe mesmo após décadas. Em 2001, o governo egípcio dedicou o Museu Kawkab al-Sharq no Cairo para celebrar a vida e as realizações da cantora.

Oum Kalthoum junto à sua orquestra, cantando Amal Hayaty:

Com esta lendária artista, tão importante para a música e para a dança árabe, iniciamos esta coluna aqui no Dança em Pauta. Se você está começando no mundo da dança oriental, este é um importante ponto de partida. Espero ajudar você na construção desse caminho para conhecer melhor a dança e a cultura árabe.


REFERÊNCIAS:

WEBSITE DA AUTORA:

www.alinemesquitadanca.com.br

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Bailarina e professora de dança do ventre formada em Licenciatura em Dança pela UFRGS, estuda as danças orientais há quase 20 anos e se dedica a ensinar essa arte desde 2010, em Porto Alegre-RS. Presente nas redes sociais para além da divulgação de seu trabalho artístico e como professora, Aline ainda produz conteúdos para ajudar a difundir o conhecimento da dança.

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