Colunas, Dança Afro

O impacto da Dança Afro no desenvolvimento humano e em nossa sociedade

Neste período de quarentena as reflexões são mais constantes e aqui em casa estamos chamando de “reflexões covidianas”… Uma brincadeira para deixar mais leve este momento tão desafiador.

A coluna “Dança Afro” e seus artigos, provavelmente, para muitos, cria uma expectativa de que as informações e conteúdos apresentados serão técnicos. Sim, mas, além disso, a coluna também tem por objetivo compartilhar temas e pontos de vista, instigar a reflexão sobre questões importantes relacionadas à nossa ancestralidade e o papel do corpo ancestral e a consciência que se ganha, no desenvolvimento humano e social do indivíduo. A ideia é gerar também um impacto na sociedade através desta consciência.

Neste artigo em especial quero ampliar nosso olhar para o que acredito ser realmente a Dança Afro. Ela não se resume a uma técnica, a uma metodologia ou aos ritos religiosos. Para mim a Dança Afro é o ponto onde nos encontramos com quem nós somos de verdade. É o lugar onde ancestralidade e história se encontram. Onde as emoções e percepções se misturam entre passado, presente e futuro. É o lugar onde podemos nos encontrar como seres, é nosso lugar no mundo, quem nós somos, fomos e podemos ser. É conexão com a nossa essência e com a natureza quando dançamos.

Entendam “dançamos” da seguinte maneira: quando o corpo se movimenta ao som de um tambor, com um ritmo tribal e/ou percussivo, onde este corpo sente a conexão com o ritmo (pois o tambor nas tradições tribais simboliza as batidas do coração), este corpo se expressa e se manifesta de maneira natural e livre. Claro que os movimentos da Dança Afro possuem significados ancestrais e auxiliam de maneira imprescindível para esta conexão não só com a natureza, mas consigo mesmo. Mas, neste artigo quero chamar a atenção para o movimento que um indivíduo “leigo na dança” (sem experiência técnica) realiza. Esta expressão e manifestação possui muita energia (axé) e é muito comunicativa. Esta linguagem está dentro de nós, mas muitas vezes adormecida devido aos tabus e amarras sociais, além de couraças que vamos adquirindo durante o processo da vida.

Agora vou contextualizar mais sobre a ampla importância da Dança Afro e como ela pode gerar uma consciência em escala e impactar na sociedade.

“Joaquim Nabuco, político, diplomata e historiador do século 19, dizia que não adiantava abolir a escravidão, era preciso acabar com os traços de escravidão na sociedade brasileira, ou seja, educar os ex-escravos, seus descendentes, lhes dar terras, oportunidades, incorporá-los à sociedade brasileira na condição de cidadãos de pleno direito com iguais oportunidades. O Brasil não fez isso. O Brasil aboliu a escravidão e abandonou seus escravos e a sua população negra à sua própria sorte. Ou seja, empurramos com a barriga um problema gigantesco que nós acumulamos ao longo de 350 anos”, Laurentino Gomes, autor do livro “Escravidão”, em entrevista a Gazeta do Povo em 27/07/2019.

Tempos atrás, li uma reportagem sobre o lançamento da Trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes, e me chamou muito a atenção sua visão sobre a importância da consciência e conhecimento sobre a escravidão e o impacto disso na sociedade. Ele também acredita que seja este o assunto mais importante que deveríamos nos debruçar dentro da nossa história. Vejo que teríamos um impacto grande não só voltado à nossa cidadania e patriotismo, mas também no âmbito educacional, social e até econômico em nosso País. Também vejo impacto na geração de oportunidades e igualdade social.

Não temos total conhecimento da nossa história e das implicações que até hoje vivemos. Laurentino também diz: “(…) É quase impossível entender o Brasil de hoje sem conhecer nossas raízes”. Outra citação relevante é a frase do padre Antônio Vieira (um dos pensadores da época do Brasil Colônia, segundo o livro de Laurentino Gomes) que diz: “O Brasil tem seu corpo na América, mas sua alma na África”.

Desde a chegada dos colonizadores ao Brasil, o quase extermínio da população indígena local e o tráfico de escravos, vemos a profunda marca deixada não só na história, mas também em nosso corpo. Nós somos este corpo que conta tudo isso. Mesmo que você seja do Ballet, do Jazz, das Danças Urbanas ou Contemporânea, antes disso, somos este corpo que fala quem somos nós brasileiros e como chegamos até aqui. Está em nosso DNA. Portanto a Dança AFRO é história, manifesto, resistência e patrimônio da humanidade. Este é um conceito que pode gerar estranheza para alguns, mas se pensarmos de maneira sistêmica, todos temos nossas raízes voltadas ao continente africano segundo vários registros científicos. Sabemos que a cultura negra tem em seu DNA a música, a dança, o ritmo, a alegria, a religiosidade, a gastronomia, vestimentas, valores familiares, conexão e respeito com a natureza, contos e lendas, a oralidade como forma de transmissão de conhecimentos e na sua estrutura social e política tudo se mescla. Portanto a Cultura está na Dança e a Dança na Cultura.

Há muitos anos atuo na capacitação de professores referente a Lei 10.639/03 que propõe novas diretrizes curriculares para o estudo da história e cultura afro-brasileira e africana. As perguntas ainda são cheias de tabus e, para mim, são evidências claras de que temos um longo caminho pela frente tratando-se da desmitificação e respeito sobre a história e religiosidade Afro e Afro brasileira. É vital um conhecimento atualizado, mais aprofundado, sem racismo, preconceitos institucionais e políticos sobre a história da escravidão (índios e negros) a qual é a base da nossa identidade, independente das outras etnias que também estão presentes em nossa trajetória.

Em resumo quero dizer que, quando falamos de Dança Afro estamos falando de um universo imenso. Outro ponto interessante é a consciência adquirida através dos movimentos expressivos ancestrais. Eles são ferramentas poderosas no desenvolvimento humano. Não estou falando de religiosidade, mas sim da nossa percepção de seres de energia e integrados uns com os outros – Ubuntu*.

*UBUNTU: Eu sou porque nós somos
É um termo antigo da região Sul Africana originado na língua Zulu (pertencente ao grupo linguístico bantu) que literalmente significa “humanidade” e geralmente é traduzido como “Humanidade para os outros” ou “Sou o que sou pelo que nós somos”.

Ano passado, quando estive no Quênia realizando um trabalho voluntário, pude sentir de perto esta conexão e espiritualidade. Fui recebida com uma amorosidade que ultrapassa tempo, cor, raça ou crenças religiosas. Então pensei: “aqui, num lugar onde a escassez está presente o tempo todo, testemunhei uma espiritualidade e conexão inexplicáveis”.

A música e a dança estão presentes em tudo. Faz parte do dia-a-dia, dos eventos, da religião, das comemorações e em rituais que vão desde dar boas-vindas até cantar e dançar para agradecer pelo alimento antes das refeições. É incrível ver e sentir tudo isso. O impacto é poderoso. Vi muitas vezes, esta força e energia usadas como ferramentas para lidar com tamanhas adversidades.

Portanto, a Dança Afro é também uma ferramenta de conexão com nossa ancestralidade, porta de entrada através do movimento e do ritmo em nosso subconsciente e inconsciente, gerando luz sobre quem nós somos e de onde viemos. Impactando pessoas, impactamos a sociedade e assim vamos transformando o mundo.

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Fundadora e Diretora da Companhia de Dança TRIBAH (Tributo e Resgate da Identidade Brasileira e Afro com Honra) é coreógrafa há mais de 25 anos, com experiência internacional em países como EUA, México, Chile, Perú, Argentina e Europa. Professora universitária de graduação e pós-graduação nas disciplinas de Dança Afro e Corporeidade, trabalha com consultoria e capacitação de professores na lei 10.639/03, tendo vasta experiência como empreendedora em escolas, academias e na TV. Possui reconhecimento público na Assembleia Legislativa do Paraná pelo Consulado do Senegal no Brasil.

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