Colunas, Danças de Salão, Forró em Pauta

No toque da sanfona, o forró demarcando seu espaço

Havia um tempo em que falar de ir a um forró era quase uma heresia. Já pensou, forró? Que coisa mais brega, estranha, cafona, baixa, plebéia, pobre, folclórico e por aí iam os mais diversos adjetivos para caracterizar e declarar de forma pejorativa a pouca receptividade que o ritmo tinha.

Nunca foi fácil para os discípulos de Luiz Gonzaga entrar na mídia, nas classes mais abastadas, e aparecer como um importante item da nossa diversificada e genial música brasileira.

Pouco interessa às pessoas se Alceu Valença, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros reafirmem a importância que tem o ritmo e o amor que eles nutrem por ele, a mídia de forma geral nunca deu espaço. É difícil entender o motivo pois, na década de 50, Luiz Gonzaga e depois Jackson do Pandeiro foram grandes sucessos nacionais, colocando o ritmo, antes regional, em plano nacional e arrebatando admiradores por todos os lados.

Acontece que pouco depois, já quase nos anos 60, um tal João Gilberto apareceu com um banquinho e um violão. Mais ou menos na mesma época, outro rapaz chamado Roberto Carlos e mais uma turma de cabeludos veio com guitarras e um jeito diferente de dançar e se requebrar. Eram a Bossa Nova e a Jovem Guarda rompendo barreiras e, principalmente, rompendo com os ritmos regionais, fazendo com que a guitarra e o violão tirassem totalmente o espaço da sanfona.

Foi um tempo obscuro para nós, amantes do forró e do baião. Luiz Gonzaga retirou-se do Olimpo e passou a marchar como um Saltimbanco pelos interiores de nosso grande país, tocando em teatros, praças, circos e onde aparecia. Muitos sanfoneiros viraram pianistas e tecladistas, mas alguns, como é o caso de Dominguinhos, se mantiveram ali, firmes e fortes, como discípulos fiéis e dedicados a sua majestade o Rei do Baião.

Já no início da década de 70, os tropicalistas assumiram a importância e a qualidade do baião. Caetano Veloso gravou Asa Branca e Gal colocou sanfona em seu show resgatando o instrumento, inclusive levando Dominguinhos na trupe em direção ao MIDEM, importante festival e feira de música europeus. Era a prova de que sanfona e guitarra podem conviver mais do que harmoniosamente e fazer verdadeiras obras primas.

Aos poucos, o ritmo foi retomando parte de seu glamour, mas aí já havia um hiato de separação de gerações, pois foram poucos os que se aventuraram no forró e ele ficou escasso de mídia e geniais talentos como o próprio Gonzaga e Dominguinhos, além de poucos sanfoneiros. Ao mesmo tempo, o forró malícia, aquele de duplo sentido, ganhou força e espaço em programas populares reforçando o rótulo de popularesco e brega que havia sido colocado no ritmo. Para piorar, Gonzaga faleceu e, pouco depois, surgiram as bandas de forró eletrônico, que de forró não tem nada, e que ajudaram a descaracterizar e desacreditar ainda mais o que Seu Luiz havia criado.

Mas no fim dos anos 90, um grupo de jovens do sudeste passou a resgatar o ritmo, não apenas com festas e eventos, mas com formação de novas bandas apoiadas fielmente nos ensinamentos do Rei do Baião. Em pouco tempo, uma delas se destacou e ganhou projeção nacional, mas nem assim o ritmo se livrou da pecha pejorativa que havia lhe sido imputada e tiveram que criar uma alcunha decorativa para que as pessoas aceitassem o ritmo, o “forró universitário”. Mesmo assim, São Paulo, acompanhado de Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, ajudaram ao nordeste a relembrar parte de sua cultura e a retomar a paixão por esse elemento fantástico de nossa música. O Falamansa, banda que liderou o movimento, subiu ao céu e até passou dele, mas não pôde ficar, pois o regional e genuinamente brasileiro tem pouca opção dentro do próprio país.

Hoje, o forró está estabilizado, bem aquém do que merecia, mas muito acima dos difíceis anos 70 e 80. Existem casas e, sobretudo, pessoas apaixonadas pelo ritmo, o que o mantém sempre com seu quinhão garantido. Além disso, os festejos juninos são sempre uma boa ocasião para ouvir, dançar e curtir um bom forrózinho.

Mas estranhamente, soube há pouco tempo que as academias de dança de salão não dão ao ritmo o mesmo valor e espaço que outras modalidades de dança. Pelo que pesquisei, zouk, salsa e samba de gafieira, acabam tendo mais atenção e tempo de professores e alunos que o forró, e parece que a justificativa é que forró é muito fácil e que não requer tantos passos difíceis, acrobáticos e lúdicos. Mas dança de salão é espetáculo apenas ou prazer de dançar junto? E hoje em dia, os passos de todas as danças não se misturaram muito?

Não sei o motivo real, confesso que frequento pouco as academias de dança, mas me sinto feliz com o espaço dado pela revista Dança em Pauta para contar um pouco sobre as histórias, personagens e características desse ritmo tão brasileiro. Brasileiro sim, mas com categoria de produto de exportação, pois cada vez mais, principalmente os europeus, estão descobrindo o forró e, aos poucos, ele vai tomando um pouco de espaço da salsa que sempre dominou os ritmos latinos no velho continente. Seria bom que, tal qual São Paulo fez pelo nordeste, a Europa fizesse com o Brasil e nós pudéssemos redescobrir o ritmo e, quem sabe, as academias de dança de salão e a mídia pudessem, enfim, dar o merecido valor que o forró tem.

Imagens: Daniel Tortora e divulgação

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Empresário e produtor no meio cultural, envolvido com o forró desde 1991, proprietário do Canto da Ema, uma das principais casas de forró de São Paulo. Criador do Dia Nacional do Forró (13 de dezembro). É apresentador e produtor do programa “Vira e Mexe”, na Rádio USP 93,7 FM, direcionado ao ritmo nordestino. O cantor Dominguinhos era seu parceiro na apresentação do programa.

0 Comments

  1. Parabéns pelo artigo. Muito bom mesmo. Eu que sou gaúcho adoro um forró tanto quanto uma vaneira. Tem que ser bem dançado, curtindo com o par, sentindo o ritmo da música. Forró é show.

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