Colunas, Dança & Educação, Danças de Salão

Multidisciplinaridade na dança de salão

Seguindo a linha de pensamento do artigo anterior desta coluna, onde falei um pouco sobre o aprendizado do ensino, desta vez trarei a tona um tema que na atualidade é visto com bons olhos e se torna uma tendência em processos pedagógicos, que é a multidisciplinaridade.

Segundo Piaget, epistemólogo suíço, “na multidisciplinaridade, recorremos a informações de várias matérias para estudar um determinado elemento, sem a preocupação de interligar as disciplinas entre si”. Lendo a definição do tema do artigo, rapidamente pude lembrar-me de episódios em que foi exatamente o uso de conhecimentos diversos, e não ligados diretamente a dança de salão da maneira tradicional, o diferencial que me chamou atenção na tratativa com a mesma.

Na última Semana da Cultura Latina, que ocorreu na cidade de São Paulo, em 2010, tive a oportunidade de assistir uma palestra da professora Milena Malzoni, sobre a utilização da Programação Neurolinguística (PNL) para dança de salão. Ela falou da possibilidade de melhorarmos nossa comunicação e interação com os alunos através de técnicas de leitura corporal e de seleção de linguagem.  Foi fantástico perceber o universo de possibilidades que poderíamos ter, dessa área de pesquisa, em nossas aulas, para melhorar a transmissão dos conhecimentos.

Também no ano passado, chegou até mim um trabalho sobre Andragogia que, segundo o educador norte americano Malcom Knowles, é a arte e a ciência destinada a auxiliar os professores a aprender e compreender o processo de aprendizagem dos adultos. Nada mais pertinente para nosso cotidiano de sala de aula, onde predominantemente temos essa faixa etária como frequentadores das classes de dança de salão. Muito nos deve interessar o entendimento do porquê os adultos consideram primeiro a experiência pessoal e os conceitos já adquiridos ao longo de sua vida, antes de se entregarem ao processo de aprendizagem. Inegável que tal conhecimento traria benefícios aos professores que manipulam esse saber em suas propostas de ensino.

Na procura de matérias para servir de conteúdo para uma aula de capacitação de professores, me deparei com os estudos de Mosston, educador físico e pesquisador na área de Pedagogia do Movimento, que desenvolveu um “continuum” classificando os métodos de ensino e os dividindo em dois grandes grupos, os de Reprodução de Conhecimento e os de Produção. Tem-se aí uma ferramenta muito útil, quando queremos fugir das tradicionais aulas em que o aluno apenas reproduz o que é pedido por seu professor. Lançando mão de métodos mais focados em produção de conhecimento, o docente incentiva autonomia e criatividade dos seus pupilos, qualidades fundamentais em qualquer dançarino de salão.

Outra informação interessante sobre o que estamos tratando, vem do professor de dança de salão paulista e docente das Faculdades Integradas Metropolitanas de Campinas, Rodrigo Vecchi. Em seu artigo A compreensão do movimento na dança de salão, o mesmo levanta a questão de trabalharmos com o “Ensino para Compreensão”, visando que nossas práticas pedagógicas, cada vez mais prezem pela apropriação do conhecimento por parte de nossos alunos, os preparando para sua jornada dançante, sem depender de seus mestres, ou seja, o professor visto como facilitador do aprendizado e não como detentor do saber.

Escuto, já tem muito tempo, pessoas ligadas à dança de salão, falando da falta de literatura ou mesmo de estudos específicos na área, para referenciarem seus trabalhos práticos ou teóricos. Acredito que isso esta mudando e temos tido mais acesso a esse tipo de informação atualmente, porém para que seja satisfeita nossa necessidade por argumentações, uma grande sacada é recorrer a outras áreas do conhecimento, e olharmos seus “saberes” pela ótica da dança a dois.

Por fim, cada ponto desse artigo poderia com certeza virar outro, e haveria dezenas de outras associações a serem apontadas, mas, por agora, nos serve a reflexão do quão amplas são as possibilidades de agregarmos outros conhecimentos às nossas práticas de ensino, visando qualificar e instrumentalizar cada vez melhor o professor de dança de salão, pois parafraseando o sábio Guimarães Rosa o “mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”.

Revisão

* Ilustração dragoart.com

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

0 Comments

  1. Olá Cristovão, demais profissionais e amantes da Dança de Salão!

    Parabenizo o site pelo conteúdo muito qualificado, o que tem me inspirado em muitos estudos na Dança de Salão. Cada palavra citada na revisão deste artigo tem imensa profundidade e aplicabilidade na Dança de Salão.
    Faço das palavras do Cristovão as minhas, quando dizemos que podemos nos ocupar de outras ciências para evoluir na Dança de Salão. LUPERINI (2008) através do livro “Dinâmicas e Jogos na Empresa” muito tem me ajudado a criar jogos e métodos de aulas de Danças de Salão. PILETTI (1999) aborda assuntos dos processos de ensino e através dele compreendi melhor as relações de Professor e Aluno.
    No ano passado fui convidada a participar do Fórum Social Mundial (Eixo Saúde) realizado aqui em Bento Gonçalves e levei ao público o tema: Dança de Salão e Salutogênese aplicada a portadores da Sindrome de Down. Como já trabalho com um grupo de alunos com Down há dois anos, pude levar algumas pequenas experiências ao Fórum.
    Nas aulas com o grupo de S. de Down abordo principalmente as questões de bem estar, coordenação e lateralidade. Mesmo o grupo sendo adulto, a maioria deles frequenta a aula com liberdade total para o aprendizado. Há utilização de métodos convencionais de danças de salão nas aulas, mas também faço uso de outros métodos inclusive de ballet clássico, dança contemporânea, teatro, noções de saúde e alimentação, entre muitos outros.
    O resultado está sendo maravilhoso! Depois de dois anos de trabalho,estou vendo resultados excelentes. A coordenação e alinhamento corporal melhoraram muito, sendo elogiados por outras entidades e professores presentes em eventos que participamos. A criatividade aumentou, o que os fez dançar de improviso com alegria e elegância. Enfim, foi testanto vários métodos que cheguei à alguns acertos e que ainda temos muito à melhorar.
    O curso de Formação de Professores que o Cristovão e Kati promovem tem muito a enriquecer os Professores de Danças de Salão. Eles incentivam a pesquisa e o ensinam de forma ideal a formação do adulto professor.
    A Andragogia é um excelente aliado que temos às aulas de Danças de Salão para os adultos. É só aplicar e ver o envolvimento dos alunos com todo o processo. E o resultado é gratificante!
    O Professor de Dança de Salão atualmente pode ocupar um papel mais estudioso, tècnico e científico, embora prezemos pela diversão e pelo lazer. Ser Professor de Dança não é mais tão simples como há 10 anos, onde bastava dançar bem para dar aula.
    Hoje precisamos pesquisar muito, ensaiar, debater, criar… e é muito bom que isso esteja acontecendo!
    Mérito dos nosso grandes mestres que nos incentivam sempre!

    Sucesso à todos!

    Lisiane Mazetto

  2. Faço da colega de dança, Elisangela, minhas palavras…

    A dança de salão vem se firmando como um aprendizado permanente, e aperfeiçoamento pessoal de cada um.

    Hoje as pessoas estão redescobrindo seus corpos a dança, e assim conseguem ver a dança como algo prazeroso, não simplesmente, fazer passos e pronto!!

    Parabens Cris, tenho saudades das tuas aulas.

    Forte abraço

  3. Cristóvão, parabéns pelos temas que tem trazido, abrindo espaços para que os praticantes da dança de salão, professores, alunos, espectadores e amantes da prática, saibam que a dança é uma área de conhecimento com saberes específicos que interagem com saberes de outras áreas. Em qualquer prática pedagógica mobilizamos saberes diversos que fundamentam a preparação e o desenvolvimento de uma aula, o que é importante para fazer com que o assunto abordado na aula atinja de fato quem está aprendendo, fazendo associações que sejam familiares e propiciem uma melhor apropriação do que está sendo trabalhado. E, como Tardif considera, o professor ideal é alguém que conhece o assunto, além de possuir certos conhecimentos relativos à educação e desenvolver um saber prático baseado em sua experiência cotidiana com os alunos. Penso que assim a Dança de Salão terá um caráter menos tecnicista e seja reconhecidamente uma prática social e educativa, conquistando um número de praticantes cada vez maior. Parabéns mais uma vez!

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