Comportamento, Em pauta

Mentes que dançam

Por Kary Subieta

A dança é o exemplo de manifestação primitiva mais explícita da expressão do homem através do dualismo “corpo e alma”, fenômeno que o filósofo René Descartes já tentava explicar desde o século XVII. No caso da dança de salão, ao extravasar o campo mental individual, ela trabalha simultaneamente dois corpos e almas, que contribuem mutuamente para a construção de seu ser. Os reflexos desta prática são inúmeros e vão desde a melhoria no convívio social, passando por quebra de timidez, geração de autoconfiança, até a formação social dos jovens e resgate de etiquetas que foram esquecidas nos bailes imperiais.

Com seu papel social, a dança de salão possibilita o aprendizado não só da técnica, mas de comportamentos que geram uma melhor interação entre os praticantes e que acabam sendo levados para outros setores de sua vida. Um exemplo disso são as atividades que extrapolam a dimensão física da sala de aula. Passeios, excursões e saídas para bailes são comuns entre os praticantes das danças a dois. Segundo a mestre em Psicologia da Universidade Veiga de Almeida campus Cabo Frio, Renata Alves, isso acontece porque a dança melhora o autoconceito do indivíduo ao trabalhar seu desempenho.

“A dança de salão aumenta a autoestima, sendo o outro a referência de suas conquistas. É uma prática que mobiliza os indivíduos ao contato social, impulsionando para a vida e melhorando o convívio em grupo”, explica Renata.


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Terapia com trilha sonora

Andar de bicicleta, aprender a nadar ou a falar uma nova língua, seja qual for a atividade, sempre ouvimos falar que a fase mais propícia ao aprendizado é a infância. Mas então, o que faz com que tantos dançarinos que iniciam aulas depois de adultos ou idosos possam aprender com excelência a arte da dança? A necessidade de ocupação, o interesse em participar de um grupo social, buscar encontros afetivos, são alguns dos pontos que fazem com que erros ou dificuldades não pesem tanto no aprendizado. Outro fator de destaque são os incontestáveis benefícios à saúde, que levam muitos médicos a indicarem a dança de salão como tratamento alternativo para problemas físicos e psicológicos. Neste sentido, não seria errado chamar o espaço da aula de sala de terapia. Renata Alves explica que a dança de salão é fundamental para o tratamento da depressão e do stress. Ela aponta sua prática como fator preventivo de psicodemência e demência associada ao envelhecimento.

O professor de dança de salão Rodrigo Mota, do Rio de Janeiro, conta que em seus 11 anos atuando na área presenciou muitos casos em que a atividade se transformou literalmente em uma terapia para seus alunos. “Tem pessoas que param de tomar remédio porque conseguem com a dança o que em outros lugares não conseguem, que é manter a postura e a mente tranquila. Com certeza, a dança as faz mais felizes”, afirma o professor.

Há dois anos frequentando as aulas de dança, o arquiteto Marcello Macedo, de 41 anos, acredita que o ato central da dança é modificar o estado de espírito das pessoas. “A dança é como uma terapia. Quando chego com a mente pesada, em uns dez a 15 minutos, há uma transformação de estado e começo a sorrir, pois o corpo está ensinado que tem que ficar bonito e interagir com a turma”, declara.

E neste divertido tratamento comportamental com trilha sonora que pode ir de um suave bolero a um intenso zouk, a aproximação física que a dança a dois requer causa estranheza a alguns no primeiro contato, mas muitos procuram a prática exatamente para perder a timidez. Foi o caso do instrutor de Dança de Salão, David Costa, de 18 anos, que mudou seu comportamento e adquiriu autoconfiança após começar a fazer aulas em uma academia no Rio de Janeiro. “A proximidade quebra a timidez. Antes eu não conseguia nem olhar nos olhos da pessoa. Aprendi como tratar as pessoas e perceber a relação entre crianças, jovens, adultos e entre o casal”, conta David. Mas a psicóloga Renata Alves lembra: “Não é só aos tímidos que esta aproximação faz bem, mas também aos mais atirados, lhes ensinando a ter limite e a não invadir o espaço alheio”.

Cordialidade e etiqueta no tratamento humano formam a base da sociabilidade em pessoas que entram ainda jovens para o universo da dança de salão, influenciando positivamente na formação do caráter dos mesmos. Atitudes como o beijo na mão são comuns em aulas e bailes de dança a dois, relembrando as etiquetas presentes nos grandes salões do segundo reinado, época em que a “dança social” foi trazida para os bailes da corte portuguesa no Brasil. A professora de matemática carioca Cláudia Vasconcellos, de 45 anos, cita os benefícios que sente para ambos os sexos:

“Hoje, os homens jovens não têm mais a delicadeza de pegar uma dama pela mão, de ser gentil, eles aprendem isso com a dança. Já para os mais velhos é um toque de algo já esquecido. Mas o melhor para a dama é o fato de poder ser um pouco mais solta e sensual”.

Fotos: Fotodança e divulgação

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