Colunas, Dança & Saúde

Fugir do sedentarismo,emagrecer ou aprender a dançar?

Quantas vezes por semana?

Quem pratica ou está pensando em praticar uma atividade física frequentemente se faz esta pergunta. Qual a frequência ideal para a modalidade? Tudo depende do objetivo que desejamos alcançar.

Fugir do sedentarismo

Um dos motivos mais comuns para aderir a uma atividade física planejada é fugir do sedentarismo, que é indiretamente uma das maiores causas de doenças crônicas e mortes por problemas cardiovasculares e metabólicos como infartos e diabetes, por exemplo.

Para não ser considerado sedentário o indivíduo deve realizar atividades moderadas pelo menos 5 vezes por semana durante 30 minutos, ou atividades intensas pelo menos 3 vezes por semana durante 20 minutos.

A intensidade de cada atividade física é medida em MET, que expressa múltiplos da nossa taxa metabólica de repouso. Em outras palavras, é uma unidade de consumo de energia e está relacionada a quanto oxigênio utilizamos, por minuto, na prática de uma atividade (ml/kg/min). Para termos uma ideia, usamos cerca de 1,5 MET para dormir ou ficar sentado vendo televisão e até 3 MET’s para andar lentamente, escrever ou lavar louça.

Costumamos medir nosso gasto energético também em calorias, que é um conceito mais conhecido: 1 MET equivale a cerca de 1,25 calorias. A meta para manter-se saudável corresponde de 450 a 750 MET’s por semana, ou 562 a 937 calorias. Atividades leves utilizam de 1,6 a 2,9 MET’s, moderadas de 3 a 6 MET’s, e intensas acima de 6 MET’s.

Estes conceitos foram colocados pelo American College of Sports Medicine (www.acsm.org), uma importante instituição norte-americana que reúne mais de 20 mil especialistas de todo o mundo em diversas áreas relacionadas às ciências do exercício. Suas publicações são muito respeitadas e estão em constante atualização. As recomendações são seguidas pelos profissionais da área e pelos que buscam saúde e qualidade de vida.

Quanta energia gasto em minhas aulas de dança?

 

Fica claro, pelo que vimos acima, que não basta movimentar-se, mas como nos movimentamos. Nas clássicas tabelas de gasto energético, a dança é colocada como uma atividade leve ou moderada, mas isto deve ser ponderado.

Tem lógica: nosso gasto energético depende de quanto oxigênio utilizamos para realizar o movimento, e a quantidade de oxigênio necessária depende da exigência que fazemos de nosso organismo (respiração, circulação, contração muscular, etc.). Ora, se estou numa aula de um ritmo lento, que movimenta pouco braços e pernas, por exemplo, gastarei pouca energia. Se, por outro lado, estiver em uma aula de um ritmo mais acelerado que movimente mais todos os segmentos corporais, gastarei mais energia.

Dentro do mesmo ritmo também há variações. Numa aula iniciante, é normal haver grandes períodos de pausas para que o professor demonstre e corrija. Numa aula avançada, há menos pausas, as sequências costumam ser mais longas e o tempo de prática é maior. Num ensaio de profissionais, há grande número de repetições com maior atenção à precisão de cada gesto físico e artístico. Fica evidente a diferença de gasto energético em cada uma destas situações.

O gasto energético e calórico é diretamente proporcional à aceleração dos batimentos cardíacos e da respiração. Há estimativas de gasto calórico e energético em diversos tipos de dança:

  • Danças de salão “lentas” (Ex.: bolero e tango): 270 calorias/hora
  • Danças de salão “rápidas” (Ex.: salsa e samba no pé): 500 a 590 calorias/hora
  • Balé clássico: 440 calorias/hora
  • Dança Flamenca: 400 calorias/hora
  • Dança folclórica brasileira: 275 calorias/hora
  • Jazz: 430 calorias/hora

Mas atenção: estas são apenas estimativas. Além das características da modalidade, o gasto energético individual também varia muito de acordo com diversos fatores, como massa corporal, idade, sexo ou particularidades metabólicas, como por exemplo, se o indivíduo tiver problemas de tireóide.

É possível encontrar em diversas fontes científicas ou leigas, bibliográficas ou eletrônicas, maneiras de calcular seu gasto energético em cada atividade. Mas fique atento e seja crítico. Não somos todos iguais e tabelas “prontas” não levam em conta como cada um de nós executa seus movimentos na aula de dança.

Aprender a dançar

 

Pois bem, se desejamos absorver e dominar a execução de um estilo de dança, a frequência necessária pode ser bem diferente daquela para apenas nos mantermos saudáveis. Aqui já estamos falando sobre um detalhamento maior do movimento, que envolverá a coordenação motora em diversos níveis, a musicalidade e diversas outras valências físicas.

O processo de aprendizagem motora é classificado por diversos autores de maneiras diferentes. Vamos considerar as seguintes fases:

  1. Estágio cognitivo: início da compreensão mental do movimento. O aluno observa e executa as primeiras tentativas de repetição do movimento, ainda de forma grosseira.
  2. Estágio associativo: as repetições do movimento possibilitam a correção e aperfeiçoamento do gesto. É necessária maior atenção concentrada, resistência e persistência.
  3. Estágio autônomo: o movimento já apresenta alta estabilidade de execução e há consistência no desempenho. O aluno consegue executar o movimento em condições dificultadas ou não-habituais, e em combinações diferentes das primárias. É nesta fase que o aluno de dança de salão atinge o objetivo de dançar com diferentes parceiros e divertir-se num baile. É a fase em que os movimentos podem ser executados “automaticamente” e o bailarino pode dedicar maior atenção à interpretação, ocupação do espaço, variações na música e outras variáveis.

Não há uma regra fixa quanto ao tempo necessário para atingir o estágio autônomo. Cada aluno tem seu tempo, dependendo de características individuais, inclusive genéticas, e vivências prévias. O estágio cognitivo pode ter uma média de tempo comparável entre diversos grupos, mas alguns alunos permanecem anos no estágio associativo, enquanto outros se mostram rapidamente ambientados à movimentação, em estágio autônomo.

Uma verdade, porém, é inegável: a prática é fundamental. Estima-se, empiricamente, que são necessárias 3 a 4 vezes o tempo de aula para que um aluno de dança de salão seja fluente no baile. Por exemplo, uma aula de 90 minutos uma vez por semana exigiria 4 horas e meia a 6 horas de prática para que a habilidade fosse “gravada” pelo cérebro e bem executada pelos músculos. A frequência semanal pode ser ótima para rever os amigos, mas do ponto de vista de aprendizagem, lentifica muito o processo. Um mínimo de duas vezes por semana acelera a passagem do estágio cognitivo para o associativo. Devemos lembrar que a cada novo movimento aprendido passamos novamente pelas 3 fases, ainda que mais rapidamente.

Aqui cabe uma observação cautelosa aos alunos: duvide dos professores que prometem “milagres” em poucas aulas. O processo de aprendizagem em dança de salão não é apenas a repetição de passos, senão um conjunto de manifestações culturais, sociais e artísticas. Os alunos não são todos iguais, portanto nenhum professor pode garantir quanto tempo será necessário para atingir os objetivos de cada um. Fique atento e ajude a selecionar os bons profissionais no mercado.

Portanto, a resposta à nossa pergunta inicial só depende de você: quanto mais praticar, melhor dançará!

CONSULTAS SUGERIDAS:

  • http://www.cdof.com.br/nutri1.htm
  • Haskell, WL et al. Physical Activity and Public Health: Updated Recommendation for Adults from the American College of Sports Medicine and the American Heart Association. Med Sci Sports Exerc., 39 (8), pp 1423-1434, 2007.
  • Nunes, SMR et al. Dança folclórica e caminhada: um estudo comparativo do gasto calórico de universitários. Rev. Salud Publica, 9 (4); 506-515, 2007
  • Russell RP et al. The Evolving Definition of “Sedentary”. Exerc Sports Sci Rev, 36 (4), pp 173-178, 2008.
  • Sperancini, MA. Características das fases do processo de aprendizagem de habilidades motoras e suas implicações nos procedimentos pedagógicos em ginástica rítmica desportiva. R. Min Educ Fis, Viçosa, 1 (1): 41-48, 1993
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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

0 Comments

  1. Olá Kenio!
    Teremos prazer em divulgar informações relevantes para dança de salão e com certeza de interesse para alunos e professores. Entre em contato conosco quando terminar sua tese.
    abç

  2. Olá Keyla e Izabela, estou desenvolvendo minha tese de pós-graduação justamente nesta área. Análise do gasto calórico em aulas de dança de salão. Justamente para sair das “estimativas” e ir para um terreno mais próximo da realidade. Em breve terei a monografia pronta e depois de aprovada se quiser algum dado, estou à disposição.
    Abraços e parabéns pela matéria!
    Kenio
    Asgar Centro de Dança
    Joinville, SC

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