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“E Se…”: espetáculo dança a violência contra a mulher

Violência física, sexual, moral, patrimonial, psicológica. Talvez você nem saiba as reais definições de todas elas e que 48% das vítimas de violência no Brasil apontam namorados, cônjuges ou ex-parceiros como autores, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde. O assunto ganha ainda mais voz neste mês, quando se Combate à Violência Contra a Mulher, em eventos, seminários e mostras, que buscam ampliar a discussão de violação dos direitos humanos. Nas artes, um espetáculo de dança contemporânea, olha para o tema profundamente e amplia as diferentes formas de falar sobre o assunto.

Sob direção artística de Gisele Bellot e coreografia de Gabriel Malo, nasceu “E Se…”, um espetáculo que reflete sobre o rompimento do ciclo de violência contra a mulher trazendo para cena todos os tipos de violências existentes e, sobretudo, colocando lado a lado temas como culpa, liberdade, utopia, medo e desejo de forma humanizada.

Com trilha sonora especialmente composta por Marcelle Barreto, argumento de Laura Delgado e um elenco composto por nomes como Katia Barros, Tutu Morasi, Milton André, entre outros, a obra, que foi adequada para audiovisual com direção de imagem de Patrick Amstalden, terá exibições gratuitas dentro da programação do projeto Teatro Sérgio Cardoso Digital, de 18 a 21 e de 25 a 28/11.

Cena do espetáculo de dança contemporânea “E Se…”. | Foto: Caio Gallucci.

Reunimos os criadores e parte do elenco para uma conversa íntima, que divide com vocês parte do processo, a concepção da obra, a coreografia, a direção, o olhar do bailarino, a trilha, o resultado, além de muitos desdobramentos que atingem o público fim, como oficinas gratuitas e um material educativo. Confiram os melhores trechos:

De onde veio a ideia da concepção do argumento para a criação deste espetáculo?
Gisele Bellot: De um convite da Laura Delgado. Achei a ideia extremamente relevante para a situação que vivemos e decidi convidar o Gabriel Malo para assinar a coreografia.
Laura Delgado: A ideia de transformar o tema em dança surgiu da inquietação em querer dialogar sobre o assunto de forma sensível que pudesse romper barreiras junto às pessoas. E a arte tem essa potência de atingir o ser humano em suas mais diversas subjetividades.

E qual a importância de falar de um tema tão urgente na contemporaneidade?
Gabriel Malo: Causar reflexão, provocar a curiosidade em cada um que tiver contato com o material do espetáculo a respeito de “Será que eu estou sendo abusada(o) e não estou me dando conta?”, “Será que eu estou agredindo e achando normal?”, “Preciso de ajuda?”. Perceber ou assumir a existência do abuso é algo complexo.

Vocês têm um elenco diverso que transita entre diferentes linguagens como o teatro musical, o balé clássico, danças sociais, entre outras. Essa escolha foi proposital?
Gisele: Totalmente proposital para que a gente falasse e tratasse de todos os assuntos com versatilidade e que cada um pudesse estar exatamente onde eles estava.
Gabriel: Como estamos falando de um tema muito humano, sobre cada ser que existe na nossa sociedade é importante dar à plateia a chance de se conectar e de se identificar com os corpos que estão em cena. Se eu tenho um elenco da mesma faixa etária e com históricos artísticos semelhantes, fecho possibilidades de identificação, deixando a percepção da plateia restrita. A história pessoal de cada um é uma peça-chave na hora de construir o espetáculo.

Como foi a construção da coreografia?
Gabriel: Partimos de um trabalho intenso de escuta da própria respiração assim como da respiração do outro, uma conexão consigo e com quem está junto na cena. Depois propus algumas referências de filmes, séries e fotos para que o bailarino trabalhasse a construção de uma mimese corpórea e começasse a abrir repertório no próprio corpo afim de sair da sua maneira de dançar para descobrir como aquele personagem dançava. Foi trabalhado o uso da mimese sonora, onde eles reproduziam com o corpo o discurso verbal que estavam ouvindo – em geral áudios de advogados e promotores de justiça em atividade durante um julgamento, ou depoimentos de mulheres que sofreram violência doméstica. As linguagens do elenco começam a se mesclar nesses improvisos e comecei a configurar as cenas baseado no roteiro que já tinha desenhado, mas que foi se revelando de inúmeras maneiras durante o processo.

Espetáculo “E Se” reflete sobre o rompimento do ciclo de violência contra a mulher. | Foto: Caio Gallucci.

E em termos de movimento e linguagem o que era importante para vocês tirarem dos intérpretes? Existe um tipo de diferença de movimento entre um tipo de violência e outra?
Gabriel: A verdade de cada corpo era o que queríamos. Ninguém se move como ninguém e descobrir movimento de cada um dentro da narrativa era o nosso objetivo. Inúmeras vezes me emocionei ao olhar uma sequência sendo construída por um intérprete e constatava que jamais teria pensado naquela maneira de se mover e como era potente o corpo e a expressão desse artista. Cada corpo tem um ponto de vista sobre a temática, eles estão a serviço da narrativa e não ao contrário. Ou seja, se dupla que interpreta a violência sexual tivesse sido escolhida para interpretar a física, então a movimentação seria diferente. Não é sobre a virtuose ou vaidade de cada corpo e sim sobre “que história eu tenho para contar com esse corpo.
Gisele: Cada bailarino do elenco doou o seu corpo para nós. O que eu sinto como diretora artística é a doação de cada emoção, de cada sentimento a serviço do trabalho.

E como foi o processo de direção, sendo que você está dentro e fora de cena? Onde começa a diretora e termina a bailarina, ou vice-versa?
Gisele: O processo começou quando o Gabriel e eu começamos a permear o roteiro e definir o que iríamos fazer. Depois de iniciado, quando eu entrava em cena, o meu papel me fazia ter uma visão mais expandida dos personagens o que clareou ainda mais a visão pela perspectiva da diretora. No momento em que estava fora de cena tinha o olhar de direção e quando eu entrava em cena, o olhar da bailarina. A diretora e a bailarina são uma só, elas só se comportam de maneiras diferentes no momento devido.

E para o elenco, como foi trabalhar com essa temática?
Katia Barros: Minha personagem é uma promotora de justiça, totalmente envolvida na defesa da vítima agredida (personagem da Gisele Bellot). A cada parte do processo fiz novas descobertas por nunca ter tratado esse tema com profundidade e por conta de a linguagem ser algo novo para mim. Acredito que o mais importante é dar voz a tantas mulheres que ainda não tiveram coragem de aceitar que vivem situações de abuso por parte de seus parceiros, delas perderem o medo e entenderem que isso não é normal.
Milton André: Todos conhecemos alguém com algum trauma por alguma das violências domésticas que infelizmente estão impregnadas na nossa cultura familiar. Meu personagem é um juiz que se divide entre duas personalidades, o lado da lei, do que age para cumprir o dever e o lado pessoal de quem também já cometeu e comete violência dentro de casa. Precisamos desenvolver temas como esse nas artes. Nosso mundo artístico também nos permite mostrar nossos direitos e possibilidades.
Tutu Morasi: O processo me fez questionar diversas posições e relações da minha vida e até resolvê-las por meio do movimento. Observar meus colegas e caminhos que foram escolhidos também me tiravam da minha própria perspectiva. Meu personagem é um homem ordinário, confuso e submerso nas suas sensações e emoções que nunca foram expressas. Esse tema nunca deixará de ser importante enquanto existir, enquanto as naturalizações não foram questionadas e transformadas.

Durante o processo vocês tiveram dois encontros especiais, um com uma psicóloga e com um conciliador para adentrarem mais profundamente este universo. Isso fez diferença?
Laura: Toda criação do projeto circunda a experiência de um processo de pesquisa abrangendo quatro diferentes olhares: um olhar para preconceito; um olhar para o mundo em que vivemos; um olhar para o outro e um olhar para si. Nesta premissa a Giselle Rocha e o Reginaldo Bombini foram peças fundamentais ao compartilharem seus estudos e experiências profissionais. Giselle trouxe considerações sobre desigualdade de gênero e violência doméstica/familiar e o Reginaldo sobre a construção da masculinidade e sociedade patriarcal. Ambos somados aos estudos realizados pelo grupo, solidificam o ponto de partida teórico do projeto.
Gisele: Entendemos que era importante que todos ouvissem uma mulher e homem, que pudessem perguntar, trocar informações. Aao longo desse processo percebemos que cada um de nós tinha um pedacinho dessa violência, ou em si, ou em casa, ou na família, ou em um conhecido.

Falar de violência, olhar para dentro dela não é uma tarefa fácil. Como foi esse processo e qual a maior dificuldade dele?
Gisele: Mergulhar a fundo na questão da violência e ao mesmo tempo transpor isso para o audiovisual, pois por conta da pandemia as apresentações presenciais foram substituídas por transmissões online.

E como foi essa transposição?
Patrick: Escolhemos filmar com a câmera na mão, sem uso de estabilizador, retratando o movimento interno das personagens que passavam pelos diferentes tipos de violência. Fizemos o uso de maquiagem e água pingando para expor os momentos pós-traumáticos, trazendo um olhar unificado dessas mulheres e suas dores.

E você optou por algum tipo de estética? Como é fazer a câmera dançar?
Patrick: Foi a primeira vez que dirigi um filme inteiro de dança com uma dramaturgia completa. Optei por contar essa história enaltecendo esses corpos e seus movimentos e principalmente os olhares e expressões das personagens, que traziam as consequências cruéis dessas agressões e dão ao espectador um olhar reflexivo sobre o tema. Criei transições para cada cena buscando unificar a obra como um todo e utilizo tanto planos sequências, quanto cortes intensos, que variam de acordo com a música e com intensidade das cenas. Tentei encontrar a visão do autor da violência e da vítima. A estética é construída nesse momento de montagem e pós-produção da obra. Como sou bailarino e operei a câmera na maioria dos takes, dancei junto com eles.

Você falou da trilha sonora. Ela foi criada especialmente para o espetáculo.
Gabriel: Iniciei o processo sentindo qual seria a atmosfera sonora que eu gostaria de trabalhar e comecei a experimentar com o elenco formas improvisos. Ao ver o que fazia sentido, passei as referências para Marcelle Barreto, que assina nossa trilha, e começamos a discutir cena a cena o que faríamos. Ela começou a acompanhar os ensaios e ia improvisando no piano ao mesmo tempo em que eu conduzia o elenco. O corpo ia alimentando a música e vice-versa.
Marcelle Barreto: Estávamos lidando com temas sobre a violência e dor, mas também com luta, coragem e esperança. Traduzir musicalmente tudo isto para os dias de hoje, foi o desafio traçado. Quando iniciamos, testamos algumas sonoridades que trariam maior dramaticidade para as cenas. Acompanhei presencialmente alguns ensaios ao piano e definimos um cronograma para a entrega das partes da obra. As ideias surgiram conjuntamente, ora eu sugeria por meio de células musicais, ora apenas improvisava reagindo aos movimentos que captava. Optamos por trazer elementos orquestrais, como as cordas (violinos, viola, violoncello e contrabaixo), texturas e efeitos característicos da música incidental do cinema, além de grooves eletrônicos, pianos, vozes, guitarra, entre outros.

Um dos momentos mais impactantes do espetáculo é uma cena que vocês titularam de “Grito Mudo”. Como é dar voz e corpo a ela?
Gisele: “Grito Mudo” é o que cada mulher no momento da violência vive. Como ela reage, como ela sente? Como ela passa por aquele tipo de situação? Esse é o grito que me moveu a fazer a personagem. Como que passando por todas aquelas situações eu conseguiria transpor isso? O que eu sentiria? O que é desamarrar os tecidos do figurino? É sentir a liberdade, mostrar que ela existe, e que a partir daquele momento cada mulher consegue forças para gritar e lutar.

Você tocou no assunto do figurino e ele realmente apresenta essas amarras…
Gabriel: A Carol Franco, nossa figurinista nos ajudou a entender a linguagem que escolhemos, a desmistificar o conceito que “roupa de mulher é vestido” e “roupa de homem é calça”. A cor cinza traz dureza, o roxo representa o machucado que a violência deixa em quem a sofre, mesmo que sejam somente machucados emocionais e psicológicos, além de representar a transformação, uma cor que traz introspecção e estimula o contato com o lado espiritual. Usar as amarrações nas camisas também dá sensação de desconstrução dos corpos que estão em busca de serem inteiros, já que um dia foram massacrados pela violência.

E o projeto atravessa as telas e chega no seu público fim, ou seja, existem articulações junto às redes de enfrentamento da violência e um formato de cartilha educativa.
Laura: O projeto tem o compromisso de alcançar a rede de proteção e enfrentamento à violência contra a mulher e a rede pública de ensino. Nossos contatos estão sendo direcionados às cidades que nos receberiam presencialmente antes da adequação ao formato online – São Paulo, Osasco, Guarulhos, Jacareí, Sorocaba, Suzano, Campinas e Santos. Ao final de cada transmissão online teremos um bate-papo com o objetivo de apresentar as alternativas de proteção a violência doméstica/familiar contra à mulher somado ao diálogo entre os artistas e a plateia. Faremos transmissões exclusivas da obra em organizações, instituições, grupos e afins, que poderão agendar a transmissão do espetáculo no dia e horário que preferirem. Iremos promover 33 oficinas de dança gratuitas para o público geral interessado, além da rede de proteção e enfrentamento à violência contra a mulher; educadores e estudantes da rede pública. E para que todos possam ter um material de apoio educativo criamos uma cartilha com conteúdo informativo/protetivo a respeito da violência/doméstica para distribuição gratuita. É a democratização do acesso a um tema relevante.


O que: espetáculo “E Se…”
Quando: 18 a 21 e 25 a 28/11
qui e sex, às 19h | sáb, às 16h | dom, às 18h
Onde: online na programação no Teatro Sérgio Cardoso Digital
Quanto: gratuito
Ingressos: site.bileto.sympla.com.br/teatrosergiocardoso

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Jornalista, pesquisadora de dança e gestora. Master em Mídia, Comunicação e Negócios pela University of California (USA, 2017), foi bolsista do programa de mentoria executiva da Harvard Business School (USA, 2019). É mestre em Comunicação e Semiótica, pós-graduada em Estudos Contemporâneos em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e atualmente é bolsista da pós-graduação do Business Behavior Institute, de Chicago. Foi coordenadora de Educativo e Comunicação (2009- 2017) e de Registro e Memória da Dança (2012-2014) da São Paulo Companhia de Dança, onde hoje é Consultora de Comunicação, Marketing e Educativo. Atua como jurada, palestrante, crítica e jornalista convidada em eventos no Brasil e exterior. É codiretora do Congresso Internacional de Jazz Dance no Brasil desde 2009, professora do curso de Pós Graduação em Dança e Consciência Corporal na Universidade Estácio de Sá e USC. Dirige a Marcela Benvegnu Gestão de Imagem e Comunicação para a Dança, desde 2018, atendendo nomes como: Royal Academy of Dance, Lucianne Murta Escola de Ballet, Balé da Cidade de Santos, Raça Cia. de Dança, Erika Novachi, Claudia Mota, entre outros.

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