Colunas, Dança & Comportamento, Danças de Salão

Dançamos o que somos

Ética. A palavra vem do grego e traz como significado a forma de comportar-se, de ser. É entendida amplamente como ramo da filosofia. O caráter é estudado na psicologia. Independente dos seus tangenciamentos com personalidade, juízos de valor ou maniqueísmo, entendemos o caráter aqui, como a forma de agir de um indivíduo no que diz respeito a ter ou não como valores a justiça, a honestidade e a retidão. A dança de salão, atividade humana, não só é desenhada pela postura ética de quem a faz, como é potencial reveladora do caráter de cada indivíduo.

No dia a dia vemos de tudo afrontando a ética, o carro no estacionamento do mercado enquanto seu dono vai ao banco; a ultrapassagem pelo acostamento; o pneu furado que nunca furou; o lixo na rua; a propina ao funcionário para obter vantagem; a monografia cujo autor oficial não a escreveu; o desvio de verba pública; a nota falsa de um real; a crítica injusta e desmedida sobre o que não se é capaz de fazer; a divulgação pública de um título acadêmico que nunca existiu e até coisas piores, como o apagar de testemunhas.

Também vemos o contrário, o cidadão que paga estacionamento quando vai ao banco, para não usar o do mercado onde não comprará nada, o que aguarda paciente sem ultrapassar pelo acostamento, o que se atrasa e não inventa justificativa, o que se recusa a pagar propina, o que guarda lixo no bolso para não jogar na rua, o que sofre, mas faz sua própria monografia honestamente, o que não se locupleta com recursos públicos mesmo diante da oportunidade, o que não falsifica dinheiro, o que não critica aquilo que não é capaz de fazer, o que só divulga os títulos que efetivamente conquistou, o que enfrenta as conseqüências dos próprios deslizes sem livrar-se de testemunhas. Todas estas pessoas convivem na mesma sociedade, como dançarinos convivem em um salão.

Para um bom observador, a dança de salão desnuda. Nenhuma palavra é necessária. É possível perceber o tipo de raciocínio que um dançarino faz na forma como realiza suas movimentações, como ocupa o espaço, e isto, quase infalivelmente o revela sem que saibamos sequer seu nome.

Com experiência, notamos que cada um dança o que é. O belo dança a formosura; o empático sabe fazer seu par feliz; o inseguro dança desconfiança; o arrogante dança desprezo; o exibido pode dançar olhando seu par, mas, move-se para que outros o vejam; o inteligente dança a sabedoria e desfruta do sentimento que quer; o competidor dança concorrendo; o hedonista dança a liberdade; o criativo dança a fantasia; o sensível dança amor, paixão, raiva, graça, sexo; o carinhoso dança doçura; o Gerson dança vantagem, o sonhador confunde-se com o personagem; o dominador dança determinando; o traidor dança perfídia; o feio dança fealdade; o sujo dança fedor; o limpo dança aroma; o verdadeiro dança o imaginário sem esquecer o que ele é. E o mentiroso… este dança o embuste, e pode fazê-lo na mais estupenda e sorridente dança.

Dançar o que se é difere de dançar o que se “está”. Embora quando feliz dance-se a alegria; triste a amargura; desejoso o sexo; furioso a violência domada, o que se é fica estampado para quem quiser e conseguir ver, esteja-se feliz, triste, apaixonado, enfurecido ou o que for.

Isto não tem nada a ver com dançar bem ou mal, tem a ver com dançarmos nossa essência. Ficamos nus ao dançar. Nus de nossas capas, luvas, toucas, máscaras. Ficamos transparentes, frágeis, totalmente à mercê de um bom, paciente e experiente observador.

Seria maravilhoso se pudéssemos assistir, por um bom tempo, políticos dançando antes das eleições. Eles poderiam até executar com perfeição cada movimento, não importa. Quando conseguimos ler a dança de uma pessoa, lemos o seu caráter. Assim, seria possível confrontar o discurso com a dança, teríamos a revelação, saberíamos em quem votar e, principalmente, em quem não votar.

Hoje, a dança de salão foi muito além do salão, ela está nas salas de aula, na educação formal, nos textos, na televisão, no vocabulário, vestuário, na administração de um negócio. É feita por homens e mulheres, albergadores de seus caráteres. Mas nenhuma destas atividades é tão reveladora quanto o que é possível ver na dança a dois de um indivíduo.

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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