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Dança e Educação: um mar de abordagens

Nada mais apropriado do que estrear esta coluna falando sobre as diversas possibilidades de assuntos que o binômio Dança–Educação pode formar, traçando um panorama dos diálogos que as duas palavras podem trazer para nossa análise.

Normalmente, a associação de educação e dança nos remete ao ambiente escolar e nos leva a pensar na criança como alvo da ação. Isso de fato é possível e de importante análise, porém, nem de longe, é a única abordagem que podemos ter sobre o tema. Traremos a tona outros enfoques para falar desse tema amplo e profundo, que dá asas a nossa imaginação e nos oferece rica discussão. A Dança de Salão terá destaque especial nesse cenário, pois além de ser minha área de atuação cotidiana, estamos num ambiente onde o interesse sobre ela é grande, por isso, nada mais justo que tenhamos ênfase na dança a dois.

A pedagoga Érica Verderi, no livro “Dança na Escola”, considera a educação como evolução e transformação do indivíduo, com isso, a dança será potencialmente uma grande “educadora” de nossos corpos e mentes, trazendo novas sensações e sentimentos a nossa rotina. Quem nunca se aconchegou nos braços de seu par ao dançar um bolero e perdeu a noção do tempo?

Lembro perfeitamente de minha transformação comportamental com o passar dos anos de aulas de dança. Inicialmente tímido e fechado socialmente, qualidades não muito apreciadas no meio da Dança de Salão, fui estimulado, ou mesmo educado, a me transformar num cavalheiro mais ousado para dançar e, por consequência, mais comunicativo com as pessoas.

Quantas vezes percebemos a mudança nas vestimentas e no consumo das pessoas, por conta de seu contato com a arte de dançar. Nunca mais, depois da dança, aquela dama comprará um sapato, antes de dar umas voltas na loja, aprovando o calçado para as noites dançantes, ou mesmo será impossível provar um vestido, sem realizar umas piruetas frente ao espelho pra ver como o mesmo se comporta em movimento.

Dada a importância que o professor de dança de salão tem atualmente nessa arte, pois ele acaba sendo elo fundamental no ensino-aprendizado da mesma, este também será alvo de futuros artigos, onde questões éticas, metodológicas e didáticas serão analisadas.

Num passado recente, o ensino da dança de salão, se dava de maneira familiar. Todos nós sempre escutamos as românticas histórias de pessoas que aprenderam a bailar sobre os pés do pai ou de tios mais dançarinos. Por inúmeras razões, que até comentaremos futuramente em outros textos, essa maneira de transmissão da dança a dois se enfraquece e, em detrimento ao fato do fortalecimento das academias de dança dentro da sociedade atual, formaliza o professor de Dança de Salão como o maior responsável pela educação dançante dos pés de valsa de hoje.

O mercado de trabalho para a Dança de Salão está ganhando em amplitude, com isso, a preparação e instrumentalização dos envolvidos no mesmo se faz cada vez mais necessária.

Este tema também será destaque nos artigos desta coluna. A dança de salão tem avançado por diversos ambientes distintos, que vão de cruzeiros temáticos em luxuosíssimos navios, até as salas de aula das faculdades. Na primeira situação somente o divertimento e interação entre os praticantes é o que importa, na outra, o desenvolvimento cognitivo toma fundamental importância nas abordagens. Que opostos esses objetivos, concorda?

Com certeza, uma das mais democráticas modalidades de dança é a dança de salão, pois permite que faixas etárias e sociais muito distintas a pratiquem e, até mesmo, dividam a mesma aula. É muito comum observarmos um jovem, homem ou mulher, enlaçado a um par de idade mais avançada, compartilhando uma linda dança, pois naquele ambiente a “moeda” valorizada é outra, não somente a estética ou posição social. De que adianta, num salão de dança, ser um belo e rico arrítmico? Será que não é necessário pensarmos sobre esses aspectos, a fim de conseguirmos desfrutar plenamente de uma aula com essas características tão peculiares? Acredito que sim, e por isso escreveremos sobre esse tema também.

O caráter na dança de salão será também um dos assuntos de nossas discussões.

Quando ensinamos e aprendemos Dança de Salão, estamos aprendendo parte da cultura de um povo, com suas características e particularidades, com isso, o ensino-aprendizado dessa arte, preconiza que se compreenda o caráter daquela gente.

Um exemplo é a inesquecível experiência de dançar um Tango com uma legítima portenha, em uma Milonga de Buenos Aires. Que árdua tarefa é a de “simular” tais condições num baile no Brasil.

Por fim, fica aqui o convite para juntos discutirmos as questões referentes à educação e a dança, focando na dança de salão. Tenho certeza que, juntos, avançaremos para enriquecer nossas visões sobre esse tema, pois como dizia o grande educador Paulo Freire:

“Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino”.

Nos vemos por aqui, e o baile continua!

Fotos: Daniel Tortora, Daniela Pimazoni e divulgação

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

0 Comments

  1. Olá Cristovão, parabens pelo artigo. Enfim alguém verossímil a educação na dança de salão. Preparação técnica e pedagógica são irmãs gêmeas na arte do ensino da dança. Trabalhar “sobre” o corpo de terceiros exige qualificação técnica pertinente. Não basta mais decorar figuras de dança e repassá-las. Atualmente, com a quantidade de universidades oferecendo cursos de Licenciatura e Especialização em Dança, tornou-se mais facil buscar qualificação. Para ser PROFISSIONAL é necessário acompahar o mercado e alcançar suas exigências, então há que se estudar.
    Sucesso Cristovão.

  2. Olá,
    Me chamo Eduardo, sou educador físico e gostaria de parabenizar a revista pela iniciativa. Sou incondicional aplicador das técnicas de Laban nas minhas aulas e sei o quanto a Dança pode contribuir com a Educação em várias situações, sejam elas direta ou indiretamente.
    Estou ansioso pelas próximas edições.

    Abraço e Sucesso.

  3. Olá Cristovão, parabéns pela coluna, muito legal ter um espaço para podermos debater efeitos e beneficios da dança, além do simplesmente dançar. Ainda mais sendo escrito por um profissional da qual sou Fã!!
    Achei muito bacana. seu depoimento pessoal:” … minha transformação comportamental com o passar dos anos de aulas de dança.
    Inicialmente tímido e fechado socialmente…fui estimulado, ou mesmo educado, a me transformar num cavalheiro mais ousado para dançar e, por consequência, mais comunicativo com as pessoas.”

    Atualmente estou estudando sobre os beneficos do exercicio fisico nas funções cerebrais e de como usar a atividade fisica como matéria-prima para regular as emoções frente as mais diversas situações da vida, ou seja, exercício físico e emoção estão intimamente ligados, uma experiência física é acompanhada simultaneamente por uma experiência psíquica, tal como uma experiência psíquica é acompanhada por uma experiência física.
    Mesmo que muito se diga sobre a importância do entendimento das relações psicofísicas das emoções nos exercícios físicos, esses beneficios nem sempre são levados em conta pelo praticante ou por alguns profissionais.

    Grande Abraço e Sucesso!
    Rodrigo Scherer

  4. Bravo, Cristóvão! Teremos muito a ganhar e a discutir com esta nova coluna. Entender as diferenças de objetivo de seus públicos, dominar a forma e o conteúdo de comunicar-se, respeitar a arte que transmite…são capacidades esperadas dos professores. Dos alunos, esperamos que saibam desfrutar dos belos momentos oferecidos pela dança de salão, que saibam diferenciar e valorizar o profissional que conduz seu aprendizado e, ao desejar tornarem-se também multiplicadores, entendam a longa jornada de preparação que isto exige (mesmo que não pareça…).
    Abraço e bem-vindo ao time!

  5. Cristovão, PARABÉNS pela matéria e indo de encontro ao seu artigo, há que se ter um olhar (binóculo) sobre essa educação proporcionada através ou pela Dança de Salão.
    Temos a necessidade de “escrafunchar” e discutirmos os métodos dos quais proporcionaremos essa educação pela Dança de Salão.

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