Colunas, Dança & Saúde

Cuidados com a coluna na dança

A coluna vertebral é o principal grupo de ossos responsável por nosso alinhamento e, consequentemente, nosso equilíbrio e estabilidade para os deslocamentos. Embora dançar seja divertido, é indispensável prestar atenção ao posicionamento de nosso eixo, para que algumas poucas aulas de dança não se transformem em uma crônica dor nas costas. Muitos alunos buscam a dança de salão justamente por orientação médica para melhorias de saúde e qualidade de vida; machucar-se ou piorar erros já existentes seria justamente o que não se deseja.

Conforme o ritmo praticado, mudarão as exigências sobre a coluna vertebral: os movimentos característicos do estilo e o modelo de calçado serão os principais determinantes para as forças que atuarão sobre a coluna. O tango e o zouk são bons exemplos de ritmos que exigem bastante da coluna do bailarino. O zouk executa grande variedade de movimentos como a flexão (anterior e lateral), a extensão e a rotação da coluna, em diversas amplitudes; geralmente é dançado com sapatilhas baixas. O tango exige uma postura mais vertical, mas o uso de saltos altos para as damas provoca o aumento da curvatura lombar, que deverá ser compensado com uma firme musculatura abdominal.

A própria posição social de dança (como chamamos o abraço característico da dança de salão) já é assimétrica, favorecendo alguns vícios de postura. A repetição dos movimentos durante meses ou anos de prática pode acompanhar-se de uma escoliose (desvio lateral da coluna) se o aluno não tiver um bom condicionamento físico e boa postura. A propriocepção ou “consciência corporal”, entendida como o reconhecimento da localização espacial dos segmentos corporais, também é fundamental para manter uma postura adequada dançando.

Nossa coluna, vista de frente ou de costas, deve ser reta; os desvios laterais não são normais, e quando acontecem, são chamados de escoliose.

Já vista de perfil, tem várias curvas consideradas normais, que servem justamente para proporcionar equilíbrio aos grandes volumes corporais. As curvas com convexidade para dentro são chamadas lordoses, e as curvas com convexidade para fora são chamadas cifoses.

  • O segmento cervical (região do pescoço) é constituído de 7 vértebras e exibe uma suave lordose; caso contrário, nossa cabeça cairia para frente;
  • O segmento dorsal ou torácico (região do peito) é constituído de 12 vértebras e apresenta cifose, para abrigar e contrabalançar o grande volume do tórax;
  • O segmento lombar (região aproximada da cintura) é constituído de 5 vértebras e apresenta uma lordose mais acentuada que a cervical; é a curva que equilibra os volumes corporais do abdome e das nádegas, que estão em lados diferentes do centro de gravidade;
  • O segmento sacral (final da coluna) é formado por vértebras fusionadas, praticamente imóveis, e também exibe uma suave cifose.

Atenção: algumas pessoas dizem “eu tenho lordose” ou “eu tenho cifose”, desconhecendo que estas curvas são normais, ou fisiológicas, como chamamos. Todas as pessoas normais tem lordose e cifose. Quando estas curvas estão anormalmente aumentadas, dizemos que a pessoa tem hiperlordose ou hipercifose. Isto é importante para desfazermos alguns mitos e falhas de comunicação que circulam nos meios da dança e atividade física.

Os segmentos de maior mobilidade da coluna vertebral são o cervical e o lombar, onde as curvas são lordóticas. Esta característica é muito utilizada na dança, em todas as mobilidades, solicitando dos bailarinos grande variedade de movimentação do pescoço e da cintura. Aí está a beleza e também o perigo: para realizar esta movimentação de maneira segura, é necessário usar a técnica adequada e ter um bom condicionamento muscular. E um bom condicionamento muscular significa ter força e alongamento na musculatura envolvida no movimento (“agonista”) e também na do segmento do lado oposto, que faz as compensações mecânicas do movimento (“antagonista”).

Para profissionais ou para quem está interessado em aprofundar-se, é interessante praticar o ballet clássico. Nele, a técnica correta da movimentação da coluna é trabalhada detalhadamente. Ao executar um cambré (hiperextensão da coluna, ou souplesse, como também chamamos no ballet), não devemos apenas “dobrar” a coluna. O correto é ”subir” o tronco, com a musculatura abdominal e glútea firme e estável, antes de realizar o cambré; é como se imaginássemos estar transpondo um obstáculo, passando por cima de um bastão, e não apenas nos curvando. Realizar o cambré com o abdome solto e com os joelhos dobrados (como no zouk) pode resultar em uma desagradável lombalgia ou até numa hérnia de disco.

Trabalho de cambré na barra, na aula de ballet…

…e o resultado cênico.

O pilates também é uma técnica excelente para quem deseja condicionar-se para dançar. Entre outras habilidades, trabalha racionalmente a simetria, o reforço abdominal e a correta movimentação da coluna, dentro do biotipo de cada aluno.

Exercícios de Pilates no aparelho Cadillac (ou trapézio)…
…no aparelho Barrel…
…ou na técnica de solo (mat), com bola suíça, trabalhando adequadamente a extensão da coluna.

Então, não esqueça: para se divertir dançando também são necessários cuidados, como condicionamento físico e a orientação de um bom professor. A compensação e o alongamento muscular ao final de cada aula de dança de salão são fundamentais, e não supérfluos. Faça com capricho! Não tenha pressa em obter resultados nem se preocupe em copiar os outros. Trabalhe com calma e respeite seu corpo. Sua coluna agradece.

Previous ArticleNext Article
Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

0 Comments

  1. Olá Ricardo,

    Agradecemos sua participação, deixando aqui seu relato, sua opinião e sugestão de tema para abordarmos. Nesta mesma coluna do site, Dança & Saúde, assinada pela médica e bailarina Izabela Gavioli, publicamos o artigo “Preparação Física para Dança de Salão” (https://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/preparacao-fisica-para-danca-de-salao/), que fala sobre atividades físicas que podem ajudar a melhorar sua performance na dança e prevenir lesões.

    Outros artigos que podem lhe interessar:

    – Dor Muscular na dança de salão https://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/dor-muscular-na-danca-de-salao/
    – Gelo ou Calor? Como tratar lesões na dança? https://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/gelo-ou-calor-como-tratar-lesoes-na-danca-de-salao/
    – O abraço saudável na dança de salão? https://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/o-abraco-saudavel-na-danca-de-salao/
    – Zouk, Cambré e Dor na Coluna? https://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/zouk-cambre-e-dor-na-coluna/

    Boa leitura e ótimas experiências dançantes pra vc! 😉

  2. Complementando minha mensagem anterior: acho que boa parte dos dançarinos amadores quase não se aquecem, não fazem alongamento antes e depois de dançarem. Temos que refletir melhor sobre isto. Sugiro, se convier, que algum profissional do ramo nos envie informações, conselhos, neste fórum, sobre aquecimento e alongamento para a prática de dança. Meu muito obrigado.

  3. Há sete anos, danço samba solo rasgado e a gafieira. Também faço atletismo (corrida de rua) há 16 anos. Hoje, com 43 anos, tenho hérnia de disco, mas ela está estabilizada graças a exercícios fisioterápicos.
    Tenho crises de dor quando faço qualquer atividade física com mais excesso. Joguei futebol muito devagar só com meu sobrinho. Na verdade foi troca de passes e chutes a gol. Pós isso, senti dores na lombar e limitação de movimentos para abaixar. Tomei tylex. Não melhorou muito. Nunca desisto, sei que esta é mais uma de muitas outras crises. Os altos e baixos sei que são rotina em minha vida.

  4. Considero extremamente acentuado o movimento de cambré realizado na dança sertanejo universitário, tanto na força quanto na velocidade. É como se a coluna vertebral se transformasse em um chicote, em movimento de hiperextensão, contrariando a formação óssea posterior. A dama é arremessada como se fosse uma boneca de pano.

  5. Concordo com o comentário acima, da Luciana. Realmente dança é coisa séria e os conhecimentos da anatomia e fisiologia humana são fundamentais para que sejam previnidas lesões na dança. Não basta saber dançar para dar aula. Ótimo artigo.

  6. Excelente artigo. Quase desisti das aulas de dança de salão por ter agravado as dores nas costas. Felizmente, alguns amigos que já faziam aula há algum tempo me chamaram p/ experimentar outra escola, dizendo q o problema era a qualidade dos profissionais. Não acreditei no começo, mas realmente existem professores e Professores (com P maiúsculo) de dança de salão. Estas informações são importantes aos iniciantes pra que não caiam na mesma furada q eu. Hoje sou viciada em dança e recomendo a todos, mas sempre alerto: PROCUREM PROFESSORES PROFISSIONAIS!

Deixe um comentário para Daniele Habib Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Send this to a friend