Eu danço

Camila Casagrande: de professora de dança a empreendedora social

Empreender exige muito mais que apenas coragem, determinação e inovação, em muitos casos é a única opção. Unindo sonho com propósito, a bailarina, coreógrafa e professora de dança Camila Casagrande, de Curitiba-PR, é um exemplo de liderança feminina no empreendedorismo social. Em setembro deste ano, ela inaugurou a sede do Instituto Incanto, do qual é presidente, uma ONG que atende crianças e adolescentes em vulnerabilidade social por meio da arte e da cultura, com aulas de dança, teatro, música, circo, artes visuais, cultura e tecnologia.

Filha de doméstica e caminhoneiro, nascida na periferia da capital paranaense, Camila teve uma infância humilde e com poucos recursos. Estudou em escola pública e seus pais sempre a incentivaram a ter educação de qualidade. Aos 12 anos, vendia pulseiras para juntar R$ 18,00 por mês e fazer ginástica no contraturno escolar. Aos 15 anos, teve a primeira experiência artística na escola pública onde estudava, apresentando uma coreografia de dança com suas amigas na semana cultural. “Ao terminar minha primeira apresentação, vivi algo novo, inesquecível e transformador: o aplauso. Me questionei sobre porque só havia tido essa sensação de pertencimento com 15 anos e decidi tornar o aplauso acessível para outras pessoas”, recorda Camila.

Em 2008, com este objetivo em mente, montou o Grupo de Dança Senses, um projeto voltado a crianças e adolescentes da comunidade, com aulas no pátio da escola em que estudava, em que ela mesma ensinava coreografias que copiava dos vídeos no YouTube.

Camila, ao centro, com os bailarinos do Grupo de Dança Senses. | Foto: divulgação.

Para fundamentar seus objetivos, Camila se aprofundou nos estudos. Bolsista do ProUni, cursou Publicidade e Propaganda e fez especializações em Gestão da Arte & Produção da Cultura, MBA em Dança – Gestão e Produção Cultural, Empreendedorismo Social e Negócios Sociais, além de se formar como Líder Social na Falcons University.

“Por dez anos, ensinar dança fez parte dos meus planos. Vi a transformação acontecer na vida das crianças que não tinham nada. Crianças que tinham todos os motivos para escolher o caminho do crime. Crianças que também experimentaram o poder do aplauso, do apreço público e que optaram pela arte”, relata.

Em 2017, Camila entendeu que além do impacto que já havia gerado, poderia gerar multiplicadores deste e atender ainda mais crianças. Fez o convite para que seus alunos se tornassem professores e fundou o Instituto Incanto,

Camila Casagrande na sede do Instituto Incanto, em Curitiba. | Foto: divulgação.

Atualmente, o Incanto atende várias ocupações e favelas de Curitiba e Região Metropolitana e conta com cerca de 120 voluntários ativos. Já impacta a vida de 510 crianças e adolescentes por meio de 17 ONG’s parceiras, que recebem as aulas desses professores distribuídas em 11 comunidades, além de outras 200 crianças atendidas diretamente no Centro Cultural Incanto, inaugurado em julho de 2021. De acordo com Camila, até 2022 serão mais de 2 mil atendimentos nas favelas.

A organização gerencia voluntários professores que dão aulas regulares no Centro Cultural e também nas organizações e associações parceiras do Incanto. “Olhar o crescimento do Incanto e lembrar de que começamos tudo isso sem recurso algum é o que mais me faz acreditar na solidariedade e no potencial que temos como seres humanos”, comenta emocionada.

Na opinião de Camila, incentivar e capacitar o empreendedorismo feminino é essencial e deve começar com a educação básica, independente da classe social: “No Incanto, por exemplo, nossas pequenas recebem aulas de como elas podem resolver problemas. Tenho a intenção de criar um comitê de gestão mirim, colocar um grupo de meninos e meninas para falar sobre o que eles querem pro mundo e como encontrar soluções para os problemas”.

No Brasil, mais de 9 milhões de micro, pequenos e médios negócios são liderados por mulheres, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2018. São diversos os motivos que fazem as mulheres empreenderem, mas o principal deles ainda é a necessidade, muitas vezes causada pelo desemprego ou por relacionamentos abusivos. De acordo com uma pesquisa realizada pela Rede Mulher Empreendedora, 26% das mulheres consultadas iniciaram seu negócio durante a pandemia de COVID-19, justamente pela necessidade de buscar uma nova renda. Além disso, a busca por mais flexibilidade, autonomia e a realização profissional também colaboram para o crescimento de mulheres empreendedoras.

“O empreendedorismo surgiu como uma consequência do que eu fui estudando e dos caminhos que foram me levando. Eu tive que aprender tudo sozinha por conta das necessidades que foram surgindo ao longo da jornada”, conta Camila Casagrande.

Para ela, o empreendedorismo social feminino deveria ser estimulado para gerar impacto positivo no mundo, seja por meio da educação, políticas públicas ou cultural. “As mulheres ainda não são vistas em cargos de liderança. Acabamos seguindo carreiras que são padrão e somos pouco incentivadas a ter o próprio negócio. Nós devemos e precisamos ocupar todos os espaços que nos são de direito, e aproveitar a sensibilidade feminina que temos para impactar positivamente a vida do próximo”, acrescenta. No Brasil, apenas 13% dos cargos ocupados por CEO são de mulheres, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Grupo Talenses, em parceria com o Insper.

QUER FAZER PARTE DO INSTITUTO INCANTO?
Quem tiver interesse em fazer parte dos projetos, de forma voluntária ou por meio de doações em dinheiro ou materiais, ou ainda se inscrever de forma gratuita nas atividades esportivas, culturais ou de educação, pode entrar em contato pelo e-mail contato@institutoincanto.org.br ou pelo telefone (41) 3078-1358. Mais informações, acesse institutoincanto.org.br

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Send this to a friend