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Aprendendo a ensinar

Por todos esses anos ligados a tarefa de ensinar dança de salão, percebo a grande recorrência de temas que envolvem as práticas de ensino/aprendizado, quando professores de dança a dois se reúnem, mesmo que informalmente, e discutem sobre suas ações dentro de sala de aula. Independente de sua formação, linha de trabalho ou método de ensino de preferência, um fato é certo: não há professor que não queira ver sua proposta materializada em um casal, dançando de maneira harmônica e prazerosa. Por essas e outras inúmeras razões, nossa busca por aprender a ensinar cada vez melhor tem tanta importância e preocupa tanta gente.

Sempre que começo a falar disso, me lembro das características freqüentes na capacitação daqueles que são ou serão professores de dança de salão. A oferta de iniciativas formais, focadas na preparação desse profissional que, ao longo de sua carreira, atuará no ensino da dança a dois para milhares de pessoas, é escassa no mercado. Por outro lado, não faltam congressos, oficinas e cursos, destinados a parte prática e a melhoria no desempenho do bailarino ou dançarino de salão.

Carlinhos de Jesus em aula na pós-graduação em Dança de Salão da FAMEC, no Paraná, único curso do gênero no Brasil

Essa realidade nos remete a pensarmos novamente sobre a questão de que a maioria dos processos de formação de um professor de dança de salão ocorre dentro das academias, e estão baseados no desenvolvimento do dançarino e não do professor, faltando preparar, por muitas vezes, aquele que é exímio executante dos movimentos, num bom facilitador do aprendizado.

Algumas escolas já desenvolvem, internamente, processos que visam capacitar seus corpos docentes para ministrarem aulas menos reprodutivas e mais autorais, com o professor sendo instigado a trabalhar em cima de objetivos, da seleção dos conteúdos, da escolha de um método de ensino e do estabelecimento de uma avaliação, fatores básicos para a estruturação de qualquer aula, mas nem sempre observadas nas de dança de salão.

Entendo perfeitamente que estamos tratando de arte, e que esta cultura da transmissão do conhecimento focada na oralidade é comum nesse meio. Esse formato existe em outras práticas muito sedimentadas como, por exemplo, as artes marciais, que também se utilizam de tal estratégia. Porém, para ser eficaz, tal processo necessita de um tempo longo e intenso de convivência do aprendiz com seu “mestre”, algo que nos dias atuais está cada vez mais complicado de acontecer, pois as cobranças por resultados feitas aos nossos jovens não são pequenas. Pressões da família, necessidade de conquista de uma posição social e aquisição de bens, abreviam esse período de contato do estudante com seu professor, fazendo com que seu processo de formação acabe sendo interrompido antes do tempo e o mesmo comece a atuar no mercado de trabalho prematuramente.

Nunca entraria no mérito de discutir o que deveria ser ensinado numa aula de dança de salão. É fundamental que nos permitamos entender as diversas interpretações e liberdade de expressão que tal área de conhecimento necessita ter para sua sobrevivência, faz parte da essência do artista manipular seu saber, transfigurá-lo e modificá-lo, transcender! Porém, acredito ser muito válido discutirmos como transmitir melhor nossas ideias e visões de dança para as pessoas.

Agora, só nos cabe ampliarmos e aprofundarmos as questões, porque na vida, às vezes seremos professores, mas devemos sempre ser eternos aprendizes, concordam?

Fotos: Deborah Godoy e Daniela Pimazoni/Dança em Pauta

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

0 Comments

  1. Olá Cristovão, parabéns!!!
    Eu como praticante de vários anos de artes marciais de estilos diferentes, passei exatamente o que falaste acima.
    Como diria meu mestre.
    “Se queres ser Mestre, faça Discipulo do seu”.
    E como você mesmo me disse um dia:
    – “tudo tem seu tempo, tenha calma”
    E com certeza sempre seremos alunos.
    Infelizmente hoje em dia não temos muito tempo com nossos professores, mas daí o que podemos fazer… Repetição, com Correção, Até a Exaustão… esperando um novo contato com o mesmo. heheh
    Abração pra vcs.

  2. Parabéns Cristovâo, acredito ser de fundamental importância debater a educação na Dança de Salão e em qualquer outro tipo de arte. Temos que acabar com essa mentalidade de que a arte não é pensada. Pelo contrário, para ser criativo e para ter dominio de qualquer assunto é preciso ter repertório, ter bagagem. Para se rabiscar e estilizar algo novo é preciso dissecar algo antigo. Não existe inovação com a cabeça vazia. Ou seja conhecimento é tudo.

  3. Além de amigo, excelente profissional, professor, o Cristovão está surpreendendo pelo seu lado literário, parabéns pelas matérias, de alto nível e pertinentes. Parabéns e grande abraço, Airton.

  4. Parabéns pelo texto Cristóvão, de uma sutileza e perspicácia fantásticas. Há uma grande diferença entre informação e formação. É na segunda que está a essência, os valores que são passados e perpetuados, como aquela formação que recebemos em casa e que nos alicerça pela vida afora seja qual for a profissão escolhida. A dança é assim, ea negligência com a formação dos novos profissionais faz com que se perca a essencia da dança de salão. O educador, em qualquer área deve ser antes de mais nada um voluntário aprendiz , mas não só da técnica, mas do lidar com o outro!

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