Comportamento, Em pauta

A dança de salão no Brasil pelo olhar de Jaime Arôxa

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O Brasil está sempre inventando e se reinventando em todas as áreas culturais. Com a dança de salão não seria diferente. Criamos ritmos legitimamente brasileiros, como o samba, o forró, o maxixe e o sucesso mundial que foi a lambada. Incorporamos, misturamos e temperamos com um toque verde e amarelo ritmos estrangeiros. E assim vem sendo traçada uma rica história para a dança de salão no país.

Em sua trajetória muitas foram as transformações pelas quais a dança de salão passou, principalmente na forma como a sociedade interage com ela. Saber dançar valsa, por exemplo, era um requisito para homens e mulheres da alta sociedade no século XIX. Enquanto isso, danças como o maxixe e o samba, eram mal vistas, de acordo com relatos históricos, por serem consideradas “dança de negro” com “sensualidade grosseira”.

Atualmente, a dança Made in Brazil é reverenciada dentro e fora do país, mas a relação das pessoas com ela mudou muito, como resultado das próprias mudanças sociais que o desenvolvimento e a tecnologia trouxeram. “A relação do homem com a mulher mudou. Hoje, existem a pressa, as várias formas de comunicação virtual, e as pessoas se esqueceram da comunicação através do olhar, do sentir”, relata o dançarino, coreógrafo e professor Jaime Arôxa. Ele comenta que, hoje, no Brasil, existe um grande número de pessoas que admira a dança de salão, mas destas, poucas procuram aprender a dançar. Em entrevista ao Dança em Pauta, este renomado dançarino, com 25 anos de profissão, fez uma análise do cenário atual da dança de salão no país, apresentando seus pontos de vista, o que deve ser mantido, aprimorado ou comemorado.

A EVOLUÇÃO

Se por um lado a dança de salão sofreu com as novas formas de se relacionar em sociedade impostas pelo desenvolvimento, por outro ela pôde tirar grande proveito das descobertas científicas. Com a evolução, as técnicas de ensino foram se aperfeiçoando, observando-se uma grande preocupação com a saúde dos praticantes e com a didática empregada nas aulas. Jaime destaca, por exemplo, a atenção que seu método de ensino tem com a biomecânica, enfatizando a postura correta e o equilíbrio.

Jaime Arôxa e Bianca Gonzalez. | Foto: divulgação

Já a internet, na opinião dele, foi um avanço que apresentou soluções e problemas para a dança de salão, pois ao mesmo tempo em que serve como poderosa ferramenta de divulgação, quando mal empregada banaliza sua prática. O dançarino acredita que a dança deve ser apresentada como um meio para desenvolver o romantismo, a sexualidade, a concentração e o equilíbrio e não somente como uma habilidade social. “Apenas saber os passos é bom, mas é efêmero. Não tem a profundidade e a eternidade que pode ter o aprendizado para a alma. Os profissionais de dança de salão devem se imbuir deste papel transformador que eles podem ter e que vai além de ser professor de dança”, afirma.

A MÍDIA E OS BOOMS

Jaime conta que vivenciou três grandes momentos de divulgação da dança de salão na mídia. O primeiro foi através da novela Kananga do Japão, exibida pela extinta TV Manchete, em 1989. Contando com muitas cenas de dança, a história despertou nos telespectadores o desejo de aprender a dançar. No mesmo período, a lambada se encarregava da explosão da dança a dois pelo mundo, com o sucesso da banda franco-brasileira Kaoma. E, mais recentemente, ele destaca o lançamento do quadro “Dança dos Famosos”, no programa Global Domingão do Faustão, que apresenta sua 7a edição e continua sendo uma grande vitrine para a dança de salão.

Cena da novela de 1989, Kananga do Japão, da TV Manchete, com Daniela Perez e Raul Gazola.

O dançarino acredita que, apesar da exposição na mídia ser benéfica, é preciso tomar cuidado com os booms. “Nestes períodos entra muita gente, mas sai muita gente também e pode ocorrer certo descrédito com o tempo. O trabalho dos professores é criar um universo paralelo para seus alunos durante a aula, de forma que eles encontrem na dança o seu refúgio. Só então, os booms servirão como alimentadores e não como um processo de substituição de um público para o outro”, analisa.

“O trabalho dos professores é criar um universo paralelo para seus alunos durante a aula, de forma que eles encontrem na dança o seu refúgio”, Jaime Arôxa.

Ainda com o objetivo de manter um público cativo na dança de salão, Jaime ressalta a importância da realização de bailes: “É preciso que os profissionais do meio tenham uma visão mais abrangente sobre o futuro da dança de salão no Brasil. É importante crescerem os congressos e demais eventos, mas não podemos nos esquecer de aumentar o número de bailes, de ter a pista cheia de gente dançando, pessoas que dois meses antes estavam sedentárias em frente à TV”.

VOCAÇÃO CRIATIVA

Existem países importadores e exportadores de dança. O Brasil tem vocação para exportar, mas ainda não percebeu seu potencial para dança de salão, analisa Jaime. “O brasileiro vai de graça dar um curso na Europa, mas pagamos caro para trazer um dançarino estrangeiro, que não vai acrescentar muita coisa, só porque ele está em evidência no Youtube, por exemplo”, comenta.

Jaime Arôxa e Katiusca Dikow. | Foto: Keyla Barros

A forma de dançar um mesmo ritmo varia de um país para outro, de acordo com sua cultura. Já no caso do Brasil, cada região tem um estilo próprio, que evidencia o perfil de seu povo. Para ele, a essência de sua forma de dançar foi aprendida na vida boêmia, em Recife, sua cidade natal, “o resto é técnica”, afirma. Jaime cita, como um nítido exemplo de estilo ligado aos costumes, a República de Cuba, famosa por sua dança alegre, sensual, de sexualidade aflorada, em face de todos os problemas que a população enfrenta. “Acho que isso prova que a felicidade não está ligada aos bens materiais, mas ao fato de ser livre para expressar o prazer de estar vivo a cada momento. E a dança permite isso”, ressalta.

A liberdade é realmente uma palavra de ordem para a dança de salão, uma das artes mais democráticas. Dentro da sala de aula, todos são iguais, sem distinção, para homens e mulheres de todas as idades, classes sociais e tipos físicos. E é esta característica que deve ser explorada pelos professores, segundo Jaime. Ele acredita que eles devem estabelecer uma relação pessoal com cada aluno, um vínculo, e, desta forma, trazer um pouco de arte para o dia-a-dia das pessoas.

“A sociedade contempla a arte e os artistas a praticam, quando na verdade ela deveria estar presente na vida de todos, mesmo de forma amadora. Você estuda pra evoluir a mente, faz exercício pra evoluir o corpo, mas como evolui seu espírito? É preciso dar ao seu espírito alegria, conhecimento e experiência. Se você consegue isto tudo nas aulas, está praticando dança de salão”, finaliza.

Matéria originalmente publicada na Revista Dança em Pauta, Ed.1, julho/2010.

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

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