Comportamento, Em pauta

A dança como terapia em tempos de isolamento

Existe uma escola, uma disciplina ou modalidade de dança, cuja linha de pesquisa e conhecimento foi desenvolvida a partir da metade do século XX e alia os estudos do movimento à psicologia, é a chamada dançaterapia. A dançaterapia é, portanto, uma modalidade de dança com finalidades especificamente terapêuticas, para promoção da saúde e desenvolvimento pessoal. Mas a dançaterapia não é a única forma de se fazer uma terapia através da dança.

Em tempos de pandemia e isolamento social, é importante que tenhamos alternativas e estejamos bem informados para passar por esse momento com saúde. E na verdade, eu queria falar aqui sobre a dança que eu e você praticamos com outras finalidades e que, independentemente disso, também têm seus benefícios terapêuticos, podendo ser uma aliada fundamental para a quarentena.

Os profissionais da saúde têm falado bastante sobre a importância dos cuidados com a saúde mental durante esse período de isolamento involuntário. Entre as principais recomendações que surgem estão: o estabelecimento de uma rotina, a prática de exercícios físicos, a realização de atividades prazerosas e, se possível, sessões de terapia online. A boa notícia é que a dança sozinha consegue abarcar tudo isso. Mas fiquem atentos e não deixem de realizar também outras atividades para colher benefícios ainda maiores.

Antes de tudo, é bom esclarecer que qualquer atividade de movimento moderada, seja ela voltada para o bem-estar físico e a saúde ou simplesmente por lazer e diversão, terá em maior ou menor grau um efeito terapêutico. Pode ser uma caminhada, um treino de academia, uma aula de dança etc. O que essas atividades têm em comum é o exercício físico.

No caso da aula de dança, você passa um período prolongado movimentando o corpo e, portanto, exercitando os músculos, gastando calorias e treinando a sua capacidade cardiorrespiratória. Toda essa atividade estimula o corpo a produzir hormônios como endorfina, dopamina e serotonina, que são os “remédios” para produzir as sensações de bem-estar, alívio de stress e ansiedade, que, neste momento, podem ser potencializadas, e assim já temos um efeito terapêutico praticamente imediato da dança nas nossas vidas. Mas a médio e longo prazo esses efeitos e os benefícios são ainda maiores.

Quando a dança entra na nossa rotina e o corpo se acostuma com ela, a simples expectativa com a chegada da hora de dançar, ou ouvir a música no início da aula, já são capazes de nos trazer as sensações de bem-estar e felicidade que a atividade proporciona. Os benefícios físicos, como reforço muscular, perda de gordura e aumento da capacidade cardiorrespiratória também são observados ao longo do tempo para quem pratica regularmente. Além disso, há um aumento da capacidade de memorização pelos constantes exercícios de combinação de movimentos e sequências coreográficas e a aquisição e refinamento da consciência corporal e coordenação motora para a execução dos movimentos.

Todos esses fatores produzem um efeito muito positivo para a autoestima da pessoa, que entra em um círculo virtuoso de desenvolvimento pessoal. E você pode fazer isso sem a necessidade de sair de casa.

Falando especificamente da dança do ventre, que é a minha área, além de todos os fatores pertinentes à dança em geral já citados, ela traz consigo algumas particularidades que acho importante trazer à tona. A dança do ventre é uma dança feminina, ponto! Embora hoje em dia haja, sim, homens nas danças orientais, inclusive se destacando, a gênese ancestral da dança do ventre é a de um ritual feito por mulheres e para mulheres. Nas aulas de dança do ventre da contemporaneidade, há esse aspecto social de camaradagem de um espaço feminino, tão raro atualmente, que nos remete e nos conecta de alguma forma ao passado ancestral da dança.

Todos os demais benefícios da dança em geral ganham outra potencialidade quando se trata de dança do ventre. A consciência corporal e a habilidade motora desenvolvidas dão forma a movimentos graciosos que são em si próprios uma expressão da feminilidade. A relação com o próprio corpo, a autoimagem, a confiança, a autonomia, ou seja, tudo o que se refere à autoestima da mulher ganha contornos especiais quando se trata de dança do ventre.

Há 10 anos trabalho ensinando essa dança para mulheres de todas as idades e todos os biotipos, e vejo diariamente os impactos positivos que a dança provoca na vida dessas mulheres, especialmente das mais maduras, que começaram a dançar com uma idade já mais avançada. E esses impactos revelam-se agora ainda mais importantes, diante das dificuldades impostas pelo isolamento.

Então, se por acaso você parou de dançar por causa da suspensão das aulas presenciais e ainda não está dançando durante o período de quarentena, considere voltar agora e recolocar essa atividade na sua rotina. As aulas de dança seguem acontecendo, porém, agora de outras formas, à distância.

O isolamento é físico, mas não necessariamente social. As aulas em ambientes virtuais como videoconferências ainda preservam a socialização, um aspecto também importante das aulas de dança. E se você não dançava antes, agora é um bom momento para começar, pois você encontra tudo o que os profissionais recomendam de uma vez só.

A dança é exercício físico, é atividade saudável para o corpo e para a mente, é cultura, é lazer, é diversão, é terapia. E, nesse momento, ela é também uma ponte, que vai nos ajudar a passar por essa crise e chegar do outro lado ainda melhores!


WEBSITE DA AUTORA:

www.alinemesquitadanca.com.br

REFERÊNCIAS:

  • ALMEIDA, M. D. S. S. A prática de exercício físico aeróbio no tratamento da depressão. ATTENA Repositório Institucional da UFPE. 2018. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/23353 Acesso em: 14 abr 2020.
  • VIEIRA, J. L. L.; ROCHA, P. G. M.; PORCU, M. Influência do exercício físico no humor e na depressão clínica em mulheres. Motriz. Journal of Physical Education. Unesp. V. 14, N 2. 2008. Disponível em: http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/motriz/article/view/1444 Acesso em: 14 abr 2020.
  • FREITAS, F. B. Benefícios psicológicos da prática de dança em pessoas com diagnósticos de ansiedade e depressão: uma revisão bibliográfica. Biblioteca Digital de Monografias, UFMA. 2019. Disponível em: http://hdl.handle.net/123456789/3057 Acesso em: 15 abr 2020.
  • ANDRADE, L. F.; COIMBRA. M. A. R.; CARBINATO. M. V.; MIRANZI, M. A. S.; PEDROSA, L. A. K. PROMOÇÃO DA SAÚDE: BENEFÍCIOS ATRAVÉS DA DANÇA. Revista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, vol. 3, núm. 3 2015, Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=497950366008 Acesso em: 15 abr 2020.
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Bailarina e professora de dança do ventre formada em Licenciatura em Dança pela UFRGS, estuda as danças orientais há quase 20 anos e se dedica a ensinar essa arte desde 2010, em Porto Alegre-RS. Presente nas redes sociais para além da divulgação de seu trabalho artístico e como professora, Aline ainda produz conteúdos para ajudar a difundir o conhecimento da dança.

2 Comments

  1. Parabéns, Aline Mesquita!Sua contribuição, com essa matéria, é de muita importância, pois incentivar o movimento do corpo ,nesse momento, contribui para com a saúde mental e física.E a dança é tudo, faz com que a felicidade habite nosso eu,afastando- nos de pensamentos negativos.Estou acompanhando suas aulas.Obrigada!

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