A arte da dança de salão conquistando seu espaço

mai 07, 2012 2 Comentários por

Na última semana de abril, Curitiba sediou a Bienal Internacional de Dança. Uma iniciativa empreendedora de um sonho de Eleonora Greca – profissional que por 31 anos foi a primeira bailarina do Teatro Guaíra -, realizado através da Fundação Cultural de Curitiba e contando com o apoio de grandes empresas parceiras para o incentivo a arte da Dança na capital paranaense. A cidade já é conhecida por respeitar e prestigiar outras linguagens artísticas através do grandioso Festival de Teatro e da Oficina de Música que, anualmente, lotam a cidade de estudiosos e pesquisadores em suas especificidades. Neste contexto, a dança merecia o seu espaço e teve.

Mesmo sendo uma primeira experiência e que tem muito que amadurecer ainda, essa iniciativa pôde evidenciar o potencial cultural que a dança tem na procura, fomento e consumo desta arte em Curitiba. Ver teatros cheios, o Memorial de Curitiba lotado, um público local e externo vivendo dança, se alimentando de dança, criticando dança, incentiva a promoção e divulgação dessa que é uma das manifestações de arte mais antigas da humanidade.

Grupo de Dança Dance Sempre, de Curitiba

Com o lema “a dança em todos os estilos” a Bienal privilegiou, em seus cursos e apresentações locais, as mais diversas linguagens de dança. E a dança de salão não ficou de fora, dessa vez ela pode se orgulhar em ter ganhado um espaço bem significativo, mostrando como sua representatividade na cidade tem um “peso” diante dessas iniciativas. Um grande avanço a ser considerado na história da dança de salão local mediante a ainda constante tendência, de um público consumidor de dança, em acreditar que as danças de salão somente tem sua expressão como prática social e não como arte. Daí a importância dos grupos que tiveram essa oportunidade de representatividade estarem em constante pesquisa artística e da concepção de produtos de qualidade para que, em eventos como esse, onde todos os estilos tem uma mesma importância, ela possa consolidar seu espaço conquistando o respeito e a admiração que a arte da dança de salão merece ter.

Para tal, aqui vai uma crítica: demonstrações de improviso ou mera colagem de passos executados no salão não costumam ser agentes promotores dessa imagem, pois outros estilos que “pensam“ a dança como arte e que focam nessa pesquisa costumam se sobressair diante dessas demonstrações.

Que fique claro que a dança de salão por sua essência é apaixonante. Que um casal dançando carinhosamente de improviso ou uma demonstração de movimentos característicos do salão, de uma maneira bem executada, são um espetáculo de arte e tanto, mas para a grandiosidade desse evento e seu potencial de divulgação é importante adequar o produto coreográfico para valorizar a dança em todas as suas vertentes, tanto na pratica social pura, como em suas infinitas possibilidades artísticas. Contudo, esse tema fará parte dos próximos artigos e será ainda bem discutido nessa nova coluna.

Abertura da Bienal Internacional de Dança de Curitiba: Luiz Dalazen e Giuliana Manfio

Para representar a dança de salão local, alguns grupos foram selecionados para realizar apresentações na abertura e fechamento da Bienal, FlashMobs pela cidade, e para ministrar as Oficinas de diversos temas oferecidas pelo evento. Todas essas iniciativas tiveram grande aceitação e validação do público. Representando a Dança de Salão, cinco instituições: Oito Tempos Dança de Salão, Escola de Dança Edson Carneiro, Dance Sempre, Centro de Dança Latina Walmir Secchi e Cido Arruda Dança de Salão em parceria com Luiz Dalazen e Giuliana Manfio.

Nos espetáculos um destaque especial para a presença da Mimulus Cia de Dança, de Belo Horizonte, e sua obra Por um Fio, apresentada na última noite da Bienal, lotando o Guairinha, com uma fila gigantesca de pessoas sem ingresso, em uma demonstração explícita de como a dança de salão, contaminada por outras linguagens de dança, pode se transformar em um grande espetáculo, equiparado aos de outras linguagens já consolidadas da dança em sua vertente artística. Uma obra que não deixa nada a desejar as grandes produções internacionais e nacionais que visitaram a nossa cidade. Um momento memorável, vide que há poucos anos essa mesma companhia, nesse mesmo teatro, com o espetáculo De Carne e Sonho, amargou três noites de apresentação com um público muito pouco significativo.

Espetáculo Por um Fio, da Mimulus Cia de Dança, de Belo Horizonte

Pude estar em todos os espetáculos disponibilizados pela Bienal e apreciar esse grande momento vivido por nossa cidade. Uma ressalva interessante foi a presença, em no mínimo 80% dos espetáculos, de células que se remetessem as danças de salão de uma maneira bem explícita. Alguns exemplos: nos bolerões do Ray Conniff pela Quasar Cia de Dança, no Cha cha cha de interação com o público da Polish Dance Theatre e até o tango no último balé apresentado pela Cia Masculina do renomado bailarino Jair Moraes. Muito interessante ver essa contaminação “reversa” a que temos acompanhado.

Outros grandes momentos foram as exibições de filmes, as palestras e o Portfólio. Esse último oportunizou a sete jovens coreógrafos a possibilidade de mostrar seus trabalhos e pesquisas para uma banca de gênios da dança e poder ouvir deles críticas e sugestões para a melhoria e crescimento de cada trabalho. Um momento ímpar em que tive a honra de ser selecionado, representando a arte das Danças de Salão.

A dança comtemporânea da Quasar Cia de Dança, de Goiânia

Essa semana será sempre bem lembrada pelos amantes da dança, pois disponibilizou, todas as noites, uma parada na rotina atual e a possibilidade de apreciação de grandes obras em cena, sempre três por noite, em teatros logisticamente localizados que propiciavam o encontro e o diálogo sobre as impressões referentes aos mesmos. A linguagem ainda predominante nessas obras foi a dança contemporânea, mas com surpresas muitos boas como a Aspen Santa Fe Ballet e seu virtuosismo Neo Clássico, o Brazilian Groove Associantion e seu Hip Hop mesclado com diversas linguagens e David Middendorp e seu grupo com uma incrível interação entre dança e imagem.

A dança de salão local tem todo o aparato necessário para criar espetáculos de qualidade e ser representada como produto artístico nesse grande circuito de espetáculos que a Bienal disponibilizou. Que esse momento sirva como agente motivador para que companhias e coreógrafos locais produzam e preencham essa lacuna que a dança de salão merece e deve preencher.

A Bienal Internacional de Dança de Curitiba demonstrou ter o potencial necessário para se tornar um marco, fazendo parte do calendário dos apreciadores da dança locais e do mundo. Que essa iniciativa possa ser um panorama justo e claro da situação da dança local fomentando o seu desenvolvimento “em todos os estilos”. E assim, “puxando a sardinha” para o nosso lado, a dança de salão possa ser bem representada para estar cada vez mais presente com espetáculos, oficinas e trabalhos de qualidade, afirmando o potencial artístico que a linguagem das danças a dois, tendo como base a essência dos gêneros da dança de salão, tem e merece.

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta, Guto Muniz e divulgação

Dança & Cultura

Sobre o autor

Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão

2 Comentários para “A arte da dança de salão conquistando seu espaço”

  1. Airton says:

    Parabéns à direção da Bienal Internacional de Dança de Curitiba, pela magnífica idéia, espetáculos de dança maravilhosos. No tocante às Danças de Salão, eu como admirador vejo que Curitiba tem muito que aprender e melhorar consideravelmente.
    Com raríssimas apresentações (locais) de bom nível, o que vi foi amadorismo puro na maioria delas, como espetáculos para palco, e apresentado por grupos dirigidos por pessoas com ampla “rodagem” e “bagagem” nas Danças de Salão.
    Mas valeu.
    abraxxx.
    Airton

  2. Tatiana Asinelli says:

    Parabéns ao autor pela propriedade a abordagem objetiva e bem explicativa! Extensivo à organização do evento pela iniciativa e por darem o 1º (e importante) passo, na certeza de que nos próximos projetos teremos TODOS oportunidade de estarmos e participarmos ativamente do evento! Curitiba é potencialmente interessante para as Danças em geral, pontuando as Danças de Salão onde atuo especificamente, pois temos excelentes profissionais a serem explorados e lançados no mundo da Dança, mas ainda nos falta imparcialidade e igualdade em diversos segmentos da Arte da Dança! Certamente ainda existe “amadorismo” nas apresentações artísticas das Danças de Salão, como citou Airton, sempre presente a atento a tudo, pela pouca oportunidade e investimento que nosso estado/cidade proporciona aos profissionais da Dança (de Salão em especial)! Tudo é com muita luta, dificuldade e sacrifício, somados à pouca ajuda, recursos e insentivo de todo e qualquer tipo, como toda batalha deve ser; porém, vale ressaltar que um país/estado/cidade sem cultura (mas aquela verdadeira e profunda), certamente será um lugar sem identidade! A 1ª Bienal tende a ser mais uma alternativa de buscármos e encontrármos nossa identidade como PROFISSIONAIS e AMADORES (agora no real sentido da palavra), como artistas, professores, praticantes e amantes da Dança, em especial as Danças de Salão, tantas vezes esquecida em nossa cidade! Para isso, basta seriedade, imparcialidade e muita vontade de superação, pois só assim “caminha a humanidade”!
    Vamos caminhar e crescer, como uma classe unida, que devemos e tendemos a ser! Parabéns, amiga Dança, pelos espaços abertos e, força nos caminhos a perorrer!

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